Energia das ondas tropeça na manutenção offshore e perde corrida para eólica do mar

Boias de energia das ondas e um aerogerador em alto mar, sob um céu nublado. (Foto: cleantechnica.com)

A promessa da energia das ondas voltou ao centro do debate técnico após uma análise detalhada do portal CleanTechnica sobre a sueca CorPower Ocean, considerada atualmente a empresa mais credível do setor. O diagnóstico é duro, pois o problema não está nas ondas, e sim na manutenção severa de máquinas pequenas e complexas operando em ambiente marinho hostil.

Fundada em 2012 e inspirada em estudos do cardiologista sueco Stig Lundbäck sobre a dinâmica de bombeamento do coração humano, a CorPower desenvolveu um conversor do tipo absorvedor pontual. O equipamento é uma boia flutuante conectada por hastes a uma estrutura fixada no leito marinho, capaz de se sintonizar para captar energia em mares comuns e se ‘destintonizar’ para sobreviver a tempestades.

A empresa já fez o que poucas concorrentes conseguiram, com um dispositivo em escala real operando na costa de Portugal, exportando eletricidade para a rede e resistindo a grandes temporais do Atlântico. Mesmo assim, a análise técnica aponta que o desafio econômico permanece intacto, porque sobreviver à primeira tempestade não é o mesmo que provar viabilidade comercial em longo prazo.

Os números expõem a fragilidade da escala. Cada dispositivo da CorPower tem capacidade de 300 kW, o que significa que uma usina de 10 MW exigiria cerca de 34 unidades, cada uma com boia, estrutura submarina, hastes, vedações, raspadores, revestimentos, amarrações, cabos e sistema de conversão de potência próprios.

A comparação com a energia eólica offshore é desfavorável para o setor de ondas. Uma única turbina eólica marítima moderna de 20 MW equivale, em capacidade nominal, a aproximadamente 67 dispositivos CorPower de 300 kW, com cadeia de suprimentos madura, financiamento bancário consolidado e operação industrializada em profundidades semelhantes às visadas pela empresa sueca.

A própria inspeção realizada pela CorPower após sua primeira campanha oceânica confirmou os pontos críticos. A companhia relatou problemas com bioincrustação, corrosão em partes das vedações onde a proteção catódica foi inadequada e teve que atualizar o regulador de maré, o sistema de graxa e as soluções de vedação e raspagem.

Aplicando metodologia de previsão por classe de referência combinada com simulação de Monte Carlo, a análise estima cerca de 0,46 evento mecânico significativo por dispositivo por ano. Em uma usina hipotética de 34 unidades, isso significaria entre 10 e 20 intervenções mecânicas maiores por ano, podendo chegar a 40 em cenários pessimistas, com custo estimado de 150 mil euros por intervenção.

O impacto sobre o custo nivelado da energia é expressivo. No cenário base, somente o componente de manutenção mecânica adicionaria entre 34 e 67 euros por MWh, antes mesmo de contabilizar monitoramento de rotina, seguros, equipe, estoque de peças, falhas de cabos, inspeções de amarração, gestão de projeto e financiamento.

A engrenagem cascata desenvolvida pela CorPower, projetada para suportar mais de 100 milhões de ciclos de carga, ainda carece de validação em frota. Dispositivos operando em ondas com períodos de 5 a 10 segundos acumulam entre 3,2 e 6,3 milhões de ciclos por ano, o que significa que a meta de durabilidade corresponde a 16 a 32 anos de operação contínua, um número que só pode ser comprovado com décadas de dados reais.

O diagnóstico final é taxativo. A bancabilidade não será provada por uma máquina heroica que sobrevive a tempestades, mas por registros entediantes de baixa taxa de retirada, intervalos de serviço previsíveis, relatórios de inspeção limpos e faturas modestas, algo que o setor de ondas ainda não entregou em nenhum lugar do mundo.

Para países com litoral extenso como o Brasil, a lição é estratégica. Apostas em soberania energética devem priorizar tecnologias já industrializadas e com cadeias produtivas robustas, como a eólica offshore e a solar, deixando a energia das ondas no campo de nichos específicos, como ilhas isoladas com geração a diesel cara ou cargas industriais remotas onde a resiliência local supera o custo do MWh atacadista.


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