O Google está em negociações com a SpaceX para colocar infraestrutura de inteligência artificial diretamente no espaço, com início previsto para 2027.
Segundo o Canaltech, que repercutiu reportagem do Wall Street Journal, o plano envolve o envio de satélites equipados com chips especializados de IA para a órbita da Terra. A iniciativa está ligada ao chamado Projeto Suncatcher, revelado pelo Google no final do ano passado.
O projeto prevê o lançamento de satélites carregando Unidades de Processamento Tensor (TPUs), os chips proprietários do Google desenvolvidos especificamente para tarefas de inteligência artificial. A SpaceX surge como parceira natural do empreendimento por conta de sua posição dominante no mercado global de lançamentos de foguetes.
A companhia já demonstrou interesse no setor ao solicitar autorização à FCC, a Comissão Federal de Comunicações dos Estados Unidos, para lançar até um milhão de satélites dedicados ao processamento de dados. O custo estimado do projeto é de proporções históricas: as duas empresas devem gastar entre US$ 1 trilhão e US$ 2 trilhões para viabilizar o plano.
O principal obstáculo é econômico e imediato. Os cálculos internos do Google para o Projeto Suncatcher indicam que o equilíbrio financeiro da operação só seria atingido com um custo de lançamento de aproximadamente US$ 200 por quilo — patamar ainda distante das capacidades operacionais atuais, mesmo com os avanços do Starship, o foguete reutilizável da SpaceX projetado para derrubar esse tipo de barreira.
Sem uma redução drástica nesse valor, o projeto permanece financeiramente inviável no curto prazo. Do ponto de vista técnico, porém, a ideia tem fundamentos sólidos.
Data centers orbitais teriam acesso contínuo à energia solar, sem as interrupções causadas por ciclos de dia e noite ou por condições atmosféricas. O ambiente espacial também oferece condições naturais para a dissipação de calor, eliminando a necessidade dos complexos e caros sistemas de refrigeração que consomem enormes quantidades de energia nos centros de dados terrestres.
O argumento ambiental também está no centro da proposta. Um grande data center convencional pode demandar energia suficiente para abastecer cidades inteiras, além de gerar impactos significativos no entorno imediato — consumo massivo de água para resfriamento e pressão sobre redes elétricas locais.
A corrida espacial corporativa, no entanto, carrega suas próprias contradições ambientais. O aumento exponencial no número de satélites em órbita baixa já preocupa astrônomos e agências espaciais pelo risco de colisões e pela poluição luminosa. Um eventual lançamento de milhares de satélites de processamento de dados adicionaria pressão considerável sobre um ambiente orbital cada vez mais congestionado.
O projeto ainda está em fase de negociação e enfrenta barreiras técnicas, econômicas e regulatórias. A data de 2027 mencionada pelo Google para os primeiros lançamentos deve ser lida como uma ambição declarada, não como um compromisso firmado.
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