Pesquisadores da Freie Universität Berlin e da Martin Luther University Halle-Wittenberg revelaram que o veneno das formigas da subfamília Formicinae é muito mais complexo do que a ciência supunha por séculos.
Além do ácido fórmico — conhecido desde o século XVII por suas propriedades defensivas —, o veneno dessas formigas contém uma rica mistura de compostos peptídicos e outras substâncias bioativas com potencial direto para a pesquisa médica.
O estudo, publicado na revista Science Advances, foi liderado por Timo Niedermeyer, professor de biologia farmacêutica na Freie Universität Berlin. A equipe investigou o veneno de oito espécies de formigas carpinteiras geograficamente distantes e identificou 35 peptídeos — batizados de formicitoxinas — pertencentes a duas famílias de genes distintas.
A descoberta derruba a crença secular de que o arsenal químico dessas formigas era relativamente simples. A composição específica das formicitoxinas variou entre as espécies analisadas, mas sua presença foi generalizada em todas elas.
Esse padrão indica uma origem evolutiva comum e uma função biológica relevante. Conforme detalhou o portal Phys.org, os peptídeos desempenham papel central na higiene dos ninhos, sendo espalhados sobre a ninhada e as áreas ao redor da colônia.
A hipótese dos pesquisadores é que as formicitoxinas reforçam uma defesa imunológica externa que persiste mesmo após os efeitos antimicrobianos imediatos do ácido fórmico perderem eficácia. Simon Tragust, líder do projeto no Instituto de Biologia da Martin Luther University Halle-Wittenberg, destacou que alguns dos peptídeos demonstram propriedades antifúngicas notáveis.
Esse achado é particularmente relevante diante da crescente ameaça de resistência microbiana à saúde humana. A metodologia combinou dados de proteínas e RNA extraídos do veneno e dos tecidos associados — abordagem chamada proteotranscriptômica — para identificar os peptídeos e mapear suas sequências genéticas.
Análises químicas, ensaios de bioatividade e síntese laboratorial das formicitoxinas foram realizados em paralelo. O resultado foi uma visão aprofundada tanto da estrutura molecular quanto da história evolutiva dos componentes do veneno.
Com mais de 3.700 espécies catalogadas na subfamília Formicinae, o potencial para novas descobertas é imenso. Os pesquisadores apontam que esta é uma das análises comparativas mais abrangentes do veneno de formigas já conduzidas.
O mapeamento sistemático das demais espécies pode revelar substâncias bioativas inéditas com aplicações diretas no desenvolvimento de novos antibióticos e antifúngicos. A resistência a medicamentos convencionais se torna, cada vez mais, uma crise global de saúde pública.
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