O governo do presidente argentino Javier Milei confirmou a privatização da Agua y Saneamientos Argentinos S.A. (AySA), empresa pública responsável pelo abastecimento de água e saneamento básico de mais de 14 milhões de pessoas na região metropolitana de Buenos Aires.
A decisão, oficializada pelo ministro da Economia, Luis Caputo, prevê a venda de 90% das ações da estatal ao setor privado. O restante de 10% será destinado aos próprios empregados da empresa por meio do Programa de Propriedade Participada.
Conforme o portal Telesur, a medida será publicada formalmente no Boletim Oficial argentino e encerra um processo iniciado há cerca de dez meses. O novo contrato de concessão estabelece a prestação do serviço por 30 anos, com possibilidade de prorrogação por mais uma década.
Caputo defendeu a operação argumentando que a entrada de um operador estratégico permitirá novos investimentos e expandirá a rede de distribuição. As promessas, no entanto, ecoam um roteiro já testado — e fracassado — na história recente do país.
A privatização da AySA na década de 1990 resultou na paralisação da expansão da cobertura e no repasse integral dos custos das obras aos usuários, aprofundando a exclusão das populações mais vulneráveis. A reestatização promovida em 2006 pelo então presidente Néstor Kirchner reverteu esse quadro, gerando avanços expressivos na infraestrutura e ampliando significativamente a cobertura do serviço.
Paralelamente à privatização da AySA, o governo Milei também acelerou a aprovação de grandes projetos de mineração no país. O ministro Caputo anunciou a incorporação de dois empreendimentos ao Regime de Incentivo para Grandes Investimentos (RIGI), somando aportes superiores a 2 bilhões de dólares.
Os projetos contemplados são a extração de cobre da Minera San Jorge, na província de Mendoza, e a ampliação do projeto de lítio de Cauchari Olaroz, na província de Jujuy. A virada pró-mineração em Mendoza reflete uma mudança de postura do governo local, alinhada à agenda de desregulamentação de Milei em escala nacional.
A demanda global por minerais críticos e a recente aproximação diplomática entre Buenos Aires e Washington — voltada a garantir o fornecimento desses recursos aos Estados Unidos — conferiram novo peso estratégico aos depósitos argentinos. A Casa Branca busca facilitar financiamentos via EXIM Bank e a Corporação Financeira de Desenvolvimento Internacional.
A coordenadora geral da organização internacional La Vía Campesina, Morgan Ody, criticou duramente o avanço da privatização de terras, água e territórios como expressão da expansão capitalista sobre os bens comuns. Para Ody, a verdadeira democratização passa pelo direito das populações de decidir coletivamente sobre o uso dos recursos em seus próprios territórios — um princípio diametralmente oposto ao que o governo Milei está implementando.
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