O caso Daniel Vorcaro começou a produzir efeito eleitoral imediato e colocou a pré-candidatura de Flávio Bolsonaro em sua fase mais perigosa.
Trackings diários do Instituto Atlas, obtidos pela CNN Brasil, indicam que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva abriu vantagem de quase sete pontos percentuais sobre o senador do PL em uma simulação de segundo turno. Lula aparece com 49,1% das intenções de voto, contra 42,6% de Flávio Bolsonaro.
O movimento representa uma reversão importante. Antes da divulgação dos áudios envolvendo Flávio e o ex-controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro, o cenário era de empate técnico entre os dois. Agora, segundo os dados atualizados às 11h desta sexta-feira, 15 de maio, Lula passa a liderar com margem mais clara no confronto direto.
Na projeção de votos válidos, o quadro fica ainda mais duro para o bolsonarismo: Lula alcança 54%, enquanto Flávio registra 46%. Esse recorte é relevante porque aproxima a leitura do cenário efetivo de segundo turno, quando votos brancos, nulos e indecisos são excluídos do cálculo final.
O dado central não é apenas o placar. É a velocidade da mudança. O levantamento diário captura o impacto imediato da crise aberta após a revelação de mensagens e áudios em que Flávio tratava com Vorcaro do financiamento do filme Dark Horse, produção sobre Jair Bolsonaro.
A crise chegou em um momento em que Flávio tentava se consolidar como principal nome da direita para 2026. Na pesquisa Genial/Quaest divulgada em 13 de maio, Lula aparecia com 42% contra 41% de Flávio no segundo turno, em empate técnico. No primeiro turno, o presidente tinha 39%, contra 33% do senador.
Ou seja, Flávio vinha conseguindo transformar o sobrenome Bolsonaro em candidatura competitiva. O caso Vorcaro, porém, interrompeu essa curva e colocou o senador na defensiva justamente quando precisava ampliar apoio fora da base mais fiel do bolsonarismo.
A Reuters informou que os mercados brasileiros reagiram negativamente às revelações sobre a ligação entre Flávio e Vorcaro. O real caiu mais de 2% e o Ibovespa recuou 1,8%, em meio à percepção de que o episódio poderia afetar o equilíbrio da corrida presidencial.
O problema político é direto. Flávio Bolsonaro tentou se apresentar como alternativa eleitoral viável contra Lula, mas agora precisa explicar por que buscou financiamento milionário com um banqueiro investigado em um dos maiores escândalos financeiros recentes do país.
Segundo a Reuters, a reportagem do The Intercept Brasil apontou que Flávio teria conseguido um acordo de patrocínio privado de US$ 24 milhões com Vorcaro para financiar um filme sobre Jair Bolsonaro. O senador confirmou a tratativa, mas afirmou que se tratava de patrocínio privado, sem contrapartida política ou vantagem indevida.
Essa defesa pode ter valor jurídico, mas não elimina o desgaste eleitoral. Em política, a percepção costuma andar mais rápido que o processo. E, neste caso, a percepção é devastadora: um pré-candidato presidencial aparece associado a um banqueiro preso, a valores milionários e a uma mudança de versão pública.
O tracking da Atlas reforça essa leitura. A vantagem de Lula não aparece isolada. Ela surge depois de uma sequência de desgastes para Flávio: áudios vazados, admissão de relação com Vorcaro, críticas na imprensa, reação negativa nas redes e cobrança interna por explicações.
Outros nomes da direita, como Ronaldo Caiado, Romeu Zema e Renan Santos, não tiveram alterações relevantes no mesmo levantamento. Segundo o Brasil 247, os três registraram leve crescimento no primeiro turno, mas recuaram nas simulações de segundo turno.
Esse dado indica que a crise atinge Flávio de forma específica. Não é apenas uma oscilação geral contra a direita. É um desgaste concentrado no nome que vinha tentando herdar o bolsonarismo de Jair Bolsonaro.
Para Lula, o resultado tem peso estratégico. O presidente vinha enfrentando pesquisas apertadas contra Flávio e precisava mostrar capacidade de recuperação. Agora, aparece com 49,1% no tracking e 54% dos votos válidos, números que recolocam sua candidatura em posição mais confortável no confronto direto.
Isso não significa eleição resolvida. Trackings diários medem movimentos de curto prazo e podem variar conforme novas informações, reação dos envolvidos e capacidade de reorganização das campanhas. Mas o sinal político é claro: o caso Vorcaro já atingiu a viabilidade eleitoral de Flávio.
A direita passa a enfrentar um dilema. Insistir no senador significa carregar uma candidatura atingida por uma crise financeira de grande repercussão. Trocar de nome significaria admitir fragilidade antes mesmo da campanha oficial começar.
O bolsonarismo ainda tem base fiel, estrutura digital e capacidade de mobilização. Mas uma eleição presidencial exige mais do que militância. Exige confiança de setores médios, apoio no centro, segurança para o mercado e capacidade de reduzir rejeição.
É justamente nesses pontos que o caso Vorcaro machuca Flávio. A crise associa sua imagem a dinheiro, banco liquidado, financiamento milionário e explicações tardias. Para um candidato que ainda tentava se tornar conhecido nacionalmente para além do sobrenome, o dano pode ser profundo.
A vantagem de Lula no tracking mostra que o eleitorado reagiu rápido. O presidente se beneficia da fragilidade do adversário e volta a aparecer com margem superior em um segundo turno que, até poucos dias atrás, era tratado como empate aberto.
O recado da pesquisa é duro para a direita: Flávio Bolsonaro pode ter chegado ao auge antes da largada. E, se o caso Vorcaro continuar avançando, a candidatura que parecia unir o bolsonarismo pode se transformar no maior problema eleitoral do próprio campo conservador.