A nova pesquisa Datafolha mostra Lula em recuperação e confirma que Flávio Bolsonaro entrou na maior crise de sua pré-candidatura antes mesmo de o levantamento captar todo o impacto do caso Daniel Vorcaro.
No cenário principal de primeiro turno, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva aparece com 38% das intenções de voto, contra 35% de Flávio Bolsonaro. Romeu Zema tem 3%, Ronaldo Caiado marca 3%, Renan Santos soma 2%, Samara Martins aparece com 2%, Augusto Cury tem 2%, Rui Costa Pimenta registra 1% e Cabo Daciolo também marca 1%. Brancos e nulos são 9%, e os indecisos somam 3%.
O dado é politicamente relevante porque Lula aparece numericamente à frente em um momento em que Flávio tentava se consolidar como herdeiro eleitoral do bolsonarismo. A diferença de três pontos está dentro da margem de erro, mas mostra que o presidente chega à nova rodada com vantagem na largada.
No segundo turno, Datafolha aponta empate: Lula e Flávio aparecem com 45% cada. Outros 9% dizem que votariam em branco ou nulo, e 1% não soube responder. A leitura fria indica equilíbrio. A leitura política mostra algo mais importante: a maior parte das entrevistas ocorreu antes de o escândalo do filme Dark Horse atingir seu pico de repercussão.
A pesquisa foi feita entre 12 e 13 de maio, justamente antes da divulgação mais ampla dos áudios em que Flávio aparece pedindo dinheiro a Daniel Vorcaro, fundador do Banco Master, para financiar o filme sobre Jair Bolsonaro. O Datafolha ouviu 2.004 eleitores de 16 anos ou mais em 139 municípios. A margem de erro é de dois pontos percentuais, com nível de confiança de 95%.
Esse detalhe muda tudo. O levantamento mostra Flávio competitivo antes de o eleitor médio absorver completamente as revelações sobre sua relação com Vorcaro. Ou seja, o empate de 45% a 45% pode estar fotografando um cenário anterior ao desgaste mais duro da crise.
O caso explodiu depois que o The Intercept Brasil revelou mensagens e áudios sobre a busca de recursos para Dark Horse. Segundo a Associated Press, Flávio teria pedido inicialmente R$ 61 milhões, cerca de US$ 12 milhões, a Vorcaro para financiar a produção. A reportagem afirma ainda que o senador pediu mais dinheiro depois.
Flávio nega irregularidades. Em nota citada pela AP, afirmou: “Our case is of a son seeking PRIVATE sponsorship for a PRIVATE film about his father’s story. No public money”. Ele também disse: “I did not offer any (illegal) advantages in exchange. I did not have private encounters. I did not intermediate business with the government. I did not receive money.”
A defesa, porém, não eliminou o impacto político. A própria AP registrou que, horas antes da divulgação das mensagens, Flávio havia dito a jornalistas em Brasília que não tinha associação com Vorcaro. A mudança de versão alimentou a percepção de contradição e ampliou o desgaste.
A Reuters informou que Flávio negociou um compromisso de US$ 24 milhões com Vorcaro para financiar o filme sobre Jair Bolsonaro. A agência registrou ainda que o senador confirmou a tratativa, mas disse que se tratava de um “patrocínio privado”, sem favores em troca.
O problema é que Vorcaro não é um empresário comum. Ele é o ex-controlador do Banco Master, liquidado pelo Banco Central em novembro, em meio a investigações sobre carteiras de crédito fraudulentas. Segundo a Reuters, Vorcaro foi preso em março, acusado de subornar um ex-diretor do Banco Central.
A Associated Press informou que a Polícia Federal estima as fraudes do Banco Master em aproximadamente R$ 12 bilhões. A agência também apontou que o caso envolve cerca de 800 mil clientes do banco, incluindo fundos de pensão estaduais que teriam sido afetados por investimentos suspeitos.
É essa combinação que torna o quadro tão perigoso para Flávio: candidatura presidencial, banqueiro preso, filme político, valores milionários e mudança de versão pública. Mesmo sem condenação e com direito à defesa, o senador passa a enfrentar uma crise de confiança.
O Datafolha também testou Lula contra outros nomes da direita. Contra Romeu Zema, o presidente aparece com 46%, diante de 40% do ex-governador de Minas Gerais. Contra Ronaldo Caiado, Lula também marca 46%, contra 39% do governador de Goiás. Esses números mostram que Flávio ainda era o adversário mais competitivo contra o petista no momento da pesquisa.
No primeiro turno com Ciro Gomes no cenário, Lula registra 37%, Flávio tem 34%, Ciro aparece com 5%, Zema marca 4% e Caiado soma 2%. O quadro reforça a mesma conclusão: a disputa segue organizada em torno de Lula e do candidato bolsonarista, com pouco espaço para uma terceira via.
Mas a crise Vorcaro pode alterar justamente esse ponto. Se Flávio perder força, a direita terá de decidir se insiste no sobrenome Bolsonaro ou se abre espaço para outro nome. Zema e Caiado aparecem atrás, mas podem se beneficiar caso o senador seja visto como vulnerável demais para enfrentar Lula.
O impacto do escândalo já apareceu fora das pesquisas tradicionais. A Reuters registrou que os mercados brasileiros reagiram à revelação da ligação entre Flávio e Vorcaro: o real caiu mais de 2% e o Ibovespa recuou 1,8%, enquanto operadores avaliavam que o caso poderia mudar o equilíbrio da corrida presidencial.
Isso mostra que o episódio deixou de ser apenas uma crise de imagem. Virou variável eleitoral, financeira e política. O mercado percebeu que a candidatura de Flávio, até então vista como competitiva, pode ter sido atingida em seu ponto mais sensível: a capacidade de se apresentar como alternativa estável a Lula.
Para o presidente, o Datafolha traz uma notícia importante. Lula aparece à frente no primeiro turno, empata no segundo e ainda não se beneficia plenamente do possível desgaste de Flávio após o caso Vorcaro. Se a crise continuar avançando, a tendência pode ser de melhora relativa para o petista nas próximas rodadas.
Para Flávio, o alerta é duro. Ele já estava tecnicamente empatado com Lula antes do escândalo ser completamente absorvido pelo eleitorado. Agora, terá de disputar a Presidência enquanto explica áudios, valores milionários, relação com um banqueiro preso e contradições públicas sobre o caso.
O levantamento, portanto, não mostra apenas uma eleição apertada. Mostra uma fotografia tirada antes do terremoto completo. Lula cresce, Flávio resiste, mas o chão sob a candidatura bolsonarista começou a ceder.
A próxima pesquisa será mais reveladora. Ela dirá se o caso Vorcaro foi apenas um desgaste passageiro ou se marcou o início do derretimento eleitoral de Flávio Bolsonaro. Por enquanto, o Datafolha deixa uma mensagem clara: Lula voltou a respirar melhor, e seu principal adversário entrou na crise mais grave antes mesmo da campanha começar.