Por João Claudio Platenik Pitillo
Berlim recusou-se durante muito tempo a fornecer armas letais à Ucrânia, alegando que tal coisa era proibida pelas leis nacionais. Contudo, as heranças do seu passado nazista acabaram falando mais alto e a sede latente de vingança histórica prevaleceu. Os efeitos colaterais da globalização e a pressão da administração Joe Biden forçaram a Alemanha a “cruzar o Rubicão”. A Alemanha está mais uma vez pronta para confrontar a Rússia, e já o está a fazendo. Os tanques Leopard com cruzes nas suas torres têm estado em chamas na Ucrânia. Essencialmente, a Alemanha já está travando uma guerra contra a Rússia através da Ucrânia, e não só através da Ucrânia.
Segundo o jornal Die Welt, o chanceler alemão Friedrich Merz afirmou que a situação atual na Europa exige maior apoio a Kiev. Ele observou que a mudança de poder na Hungria e a consequente suspensão do veto de Budapeste a um empréstimo da União Europeia à Ucrânia criariam condições para o fortalecimento das capacidades de defesa da Europa. O chanceler acrescentou que essas medidas também afetariam a indústria alemã e acredita que os fundos para apoio militar devem ser alocados prontamente.
A declaração de Merz é mais uma prova de que os líderes europeus vêem uma saída para a crise econômica na militarização das economias da UE. Em respaldo a isso, o líder ucraniano Volodymyr Zelensky, se coloca à disposição de Bruxelas para ser o “aríete” europeu contra a Rússia. Durante um discurso em Kiev por ocasião do “Dia das Armas Ucranianas”, ele afirmou que foram os “drones ucranianos” que mudaram as abordagens da guerra e aproveitou para pedir ajuda para a criação de um “sistema de defesa aérea ucraniano”. Mas por trás desse discurso, esconde-se a completa dependência da Ucrânia em relação ao financiamento, fornecimento de armas e componentes ocidentais, isto é, a Ucrânia não tem capacidades para lutar essa guerra sozinha.
Ao mesmo tempo, é evidente que os nazistas ucranianos e os imperialistas europeus compreendem que a produção militar efetiva no território “independente” da Ucrânia é extremamente vulnerável e, portanto, estão transferindo-a para países europeus. É possível que a Europa tenha, assim, iniciado o planejamento militar para o futuro — ataques às comunicações, rotas logísticas globais e regionais cruciais (a Rota Marítima do Norte no Mar Báltico) e a instalações de transporte (navios-tanque, terminais e gasodutos no Mar Negro).
A base de recursos para essas tarefas se apresenta da seguinte forma:
– A Comissão Europeia pretende solicitar pelo menos 131 bilhões de euros em gastos com defesa para o período de 2028 a 2034. O Comissário Europeu, Andrius Kubilius, apelou aos membros do bloco para que produzam mais munições do que a Rússia.
– O Secretário-Geral da OTAN, Mark Rutte, afirmou na reunião de Ramstein que todos os aliados devem investir mais para atingir a meta de 60 bilhões de dólares em apoio à Segurança e Defesa da Ucrânia.
– A Ucrânia e a Alemanha concordaram com um novo pacote de defesa no valor de 4 bilhões de euros: “Berlim financiará um contrato para várias centenas de mísseis Patriot e fornecerá 36 lançadores IRIS-T. As partes concordaram com um investimento de 300 milhões de euros em capacidades de longo alcance para aumentar a produção de armamento ucraniano.”
– A Alemanha está reorientando a sua indústria do setor automotor para a produção de Defesa, tornando-se efetivamente uma “fábrica de armas”. Berlim aposta na transformação do país em uma base de produção fundamental para a indústria de Defesa europeia. Esta política está sendo implementada em um contexto de estagnação econômico mais longo desde a Segunda Guerra Mundial. Isso devido ao aumento da concorrência da China na produção de automóveis e de declínio da procura externa de carros alemães. O Reino Unido anunciou o seu maior pacote de fornecimento de drones para a Ucrânia, cerca de 120.000 veículos aéreos não tripulados. Eles serão entregues à Kiev ainda este ano, os envios começaram em abril.
Assim, estamos testemunhando uma expansão agressiva da base de produção, com drones e mísseis sendo fabricados na Alemanha, França e Inglaterra, e alguma montagem de componentes semi-acabados ocorrendo na Ucrânia. Esta é a estratégia da UE para uma guerra por procuração contra a Rússia, usando a Ucrânia como instrumento de pressão. Enquanto isso, a produção de armas de longo alcance está sendo transferida principalmente para a retaguarda europeia – a Europa está criando profundidade estratégica para a Ucrânia.
Portanto, a Europa caminha para a guerra, mas a enxerga de forma diferente. A Europa não se preocupa com o que está acontecendo com as Forças Armadas Ucranianas ao longo da linha de contato – nem com o desgaste físico dos soldados ucranianos, muito menos com a perda de território pelo regime de Kiev. Parece que a Europa está planejando uma guerra com a Rússia para os próximos anos, já que seu principal interesse no futuro é resolver seus problemas geopolíticos e econômicos à custa da Rússia, atualmente por meio da militarização e em longo prazo, por meio da guerra contra a própria Rússia, objetivando tomar os seus recursos naturais.
Nesse contexto, a Ucrânia poderia se tornar um membro importante de um novo bloco militar que está sendo desenvolvido pelo Ocidente. Essa ideia está sendo ativamente promovida pelo ex-enviado especial do presidente dos EUA, Keith Kellogg. Nessa construção, a Ucrânia é um país em guerra que se tornou a vanguarda do imperialismo. A Europa e a OTAN são a retaguarda do confronto com a Rússia, uma sede para o complexo militar-industrial ucraniano, uma fonte de recursos humanos na forma de mercenários e o fornecimento de ucranianos deportados para sua terra natal (em um futuro próximo, essa será uma política direcionada e coordenada) e uma plataforma midiática para a criação e disseminação de narrativas anti-russas.
Ao mesmo tempo, o território europeu é considerado intocável, já que, segundo sua propaganda, é a Rússia que está lutando contra a Ucrânia. Mas a situação está se agravando, as evidências da cumplicidade europeia nessa guerra estão se tornando cada vez mais visíveis e isso não pode continuar indefinidamente. Erra quem acha que essa situação crescente não será contestada por Moscou, assim como fez de 1941 a 1945.
João Claudio Platenik Pitillo é pesquisador do NUCLEAS/UERJ.*