A crise do filme Dark Horse ganhou uma nova prova de proximidade entre o núcleo bolsonarista e Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master.
Áudio obtido pelo The Intercept Brasil mostra o deputado federal Mario Frias agradecendo diretamente a Vorcaro pelo apoio ao filme sobre Jair Bolsonaro. A mensagem foi enviada em 11 de dezembro de 2024, poucas horas depois de um encontro previsto entre Flávio Bolsonaro e o banqueiro em Brasília.
Na gravação, segundo o Intercept, Frias diz que queria agradecer o apoio ao projeto e afirma que o longa “vai mexer com o coração de muita gente”. Também declara que a produção seria “muito importante para o nosso país”. A frase tem peso político porque mostra que Vorcaro não era um nome periférico, mas alguém tratado como apoiador relevante de uma obra planejada para projetar a imagem de Jair Bolsonaro.
O áudio amplia o desgaste de Flávio Bolsonaro. Até aqui, o senador tentava sustentar que a tratativa com Vorcaro era apenas um patrocínio privado, sem contrapartida política e sem irregularidade. Mas a entrada de Mario Frias na conversa reforça que o projeto envolvia outros integrantes do campo bolsonarista e tinha dimensão política evidente.
Dark Horse não era um filme comum. A produção sobre Jair Bolsonaro estava prevista para ser lançada no ambiente eleitoral de 2026, com potencial de funcionar como peça de mobilização emocional da direita. Por isso, cada nova revelação sobre sua captação de recursos ganha peso eleitoral.
Segundo a Associated Press, Flávio Bolsonaro pediu inicialmente R$ 61 milhões, cerca de US$ 12 milhões, a Vorcaro para financiar o filme. Depois, teria solicitado mais recursos. O senador nega irregularidades e afirma que se tratava de uma iniciativa privada, com dinheiro privado, sem oferta de vantagens indevidas.
A Reuters informou que o compromisso financeiro negociado para a produção chegou a US$ 24 milhões. A produtora GOUP Entertainment nega ter recebido dinheiro de Vorcaro ou de suas empresas. Essa contradição continua sendo uma das perguntas centrais do caso: se houve promessa ou transferência de recursos, para onde o dinheiro foi?
O Guardian registrou que áudios e mensagens revelaram Flávio pedindo US$ 26,8 milhões para financiar a cinebiografia do pai. A reportagem também destacou que, embora não esteja claro se todo o valor foi pago, ao menos US$ 12 milhões teriam sido transferidos por intermediários.
É nesse contexto que o áudio de Mario Frias se torna decisivo. Ele não prova, por si só, crime. Frias, Flávio, Vorcaro e os demais citados têm direito à defesa e à presunção de inocência. Mas o áudio reforça a materialidade da relação política entre o entorno de Bolsonaro e o banqueiro investigado.
Vorcaro não é um apoiador qualquer. Ele é o ex-controlador do Banco Master, instituição envolvida em investigação de grande repercussão. A AP informa que a Polícia Federal estima perdas de cerca de R$ 12 bilhões no caso, envolvendo clientes do banco e fundos de pensão.
A crise também ganhou uma dimensão eleitoral imediata. Após a revelação das conversas entre Flávio e Vorcaro, pesquisas passaram a registrar queda do senador e vantagem de Lula em simulações de 2026. O caso atingiu justamente o ponto mais sensível da pré-campanha bolsonarista: a tentativa de apresentar Flávio como candidato viável e menos vulnerável que o pai.
O áudio de Frias dificulta a tentativa de reduzir tudo a uma conversa privada de Flávio. Agora, há registro de outro ator político relevante, deputado federal e ex-secretário especial da Cultura, agradecendo ao banqueiro pelo apoio ao projeto. Isso amplia a percepção de que havia uma rede de articulação em torno do filme.
A revelação também enfraquece a tese de que Dark Horse era apenas uma produção cultural sem impacto político. Um filme sobre Jair Bolsonaro, financiado por valores milionários, articulado por aliados próximos e planejado em meio à sucessão presidencial, tem evidente relevância eleitoral.
Para a direita, o problema é que a obra que deveria fortalecer a memória política de Bolsonaro virou uma fonte permanente de desgaste. Primeiro vieram os áudios de Flávio. Depois, as suspeitas sobre o destino dos recursos. Agora, surge Mario Frias agradecendo diretamente a Vorcaro pelo apoio.
Cada nova peça aproxima o caso de uma pergunta central: quem participou da captação, quanto foi prometido, quanto foi pago, quem recebeu e qual era o verdadeiro objetivo político do filme?
Enquanto essas respostas não forem dadas de forma clara, o caso Dark Horse continuará corroendo a candidatura de Flávio Bolsonaro e ampliando o alcance do escândalo Master dentro do núcleo bolsonarista.
O áudio de Mario Frias não encerra a crise. Ele abre mais uma porta. E mostra que a relação entre Vorcaro e o projeto político da família Bolsonaro parece ter sido mais ampla, mais organizada e mais comprometedora do que a versão inicial tentava fazer parecer.