Na cidade de Ouro Preto, em Minas Gerais, uma descoberta arqueológica significativa foi feita em uma casa histórica durante uma reforma em 2017. Localizada na rua Conde de Bobadela, nº 134, a casa revelou desenhos e grafismos relacionados à cultura africana e ao período da escravidão, que estavam ocultos por quase 300 anos. Este achado foi recentemente oficializado como sítio arqueológico pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em março de 2026.
A casa, que foi adquirida na década de 1980 com o objetivo de se tornar um restaurante, teve seu destino alterado após a revelação dos desenhos. Philipe Passos, administrador e filho dos proprietários, explicou que a reforma geral da casa, que estava em más condições, revelou os desenhos nas paredes do porão. Este local, escuro e de difícil acesso, só recebeu energia elétrica na década de 1980, o que ajudou a preservar os símbolos.
O historiador e arqueólogo Leonardo Klink, que estudou a casa em seu projeto de doutorado na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), identificou cerca de 26 desenhos. Eles incluem representações de animais, figuras geométricas, elementos de vegetação e até uma possível embarcação. Alguns desenhos só puderam ser vistos com luzes especiais e tratamento digital devido ao desgaste ao longo dos séculos.
Entre as imagens, destaca-se um grupo de pessoas em um pátio cercado por muros e torres, com duas figuras utilizando um pilão. Klink encontrou correspondências para esse tipo de construção em regiões da África Ocidental. Outro desenho intrigante mistura características humanas e animais, com chifres e dentes pontiagudos, feito com pigmento escuro.
Embora ainda não se saiba quem criou as imagens ou quando foram feitas, é sabido que africanos e seus descendentes viveram naquele espaço como escravos. Eles desempenhavam tarefas domésticas e trabalhos pesados, mas também interagiam, criavam vínculos e buscavam formas de ascensão social. O trabalho de pessoas escravizadas foi uma realidade no Brasil até 1888.
O Iphan registrou o local como sítio arqueológico no Sistema Integrado de Conhecimento e Gestão (SICG) com a denominação “Inscrições Afrodiaspóricas”. A preservação desses patrimônios vai além da conservação física dos vestígios materiais, reconhecendo o protagonismo da população negra na formação histórica e cultural de Minas Gerais.
Philipe Passos defende que o local passe a receber visitação, enfatizando a importância de preservar o passado para o futuro. Atualmente, o espaço está fechado e passa por adaptações, com estudos sob a supervisão do Iphan para a conservação e futura visitação do imóvel. O Iphan também destacou a criação do Comitê Permanente para Preservação do Patrimônio Cultural de Matriz Africana (COPMAF) como um avanço no reconhecimento e valorização dos patrimônios culturais de matriz africana e afro-brasileira.
Para mais informações, consulte o portal Metrópoles.
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