Qual é o impacto real de Trump na economia dos EUA?

The Economist calcula o impacto negativo no crescimento causado pela inconsistência das políticas de Trump.

Estudo aponta que políticas comerciais e migratórias retiraram até 0,8 ponto percentual do crescimento americano

Há uma pergunta que economistas, investidores e analistas políticos não conseguem parar de fazer desde que Donald Trump voltou à Casa Branca: se os Estados Unidos seguem crescendo, por que tanto alarme? A resposta, porém, é mais sutil do que os números brutos sugerem — e bem mais cara do que a maioria imagina. Em 2025, a economia americana cresceu 2,1%. Enquanto isso, Grã-Bretanha, França e Japão mal chegaram a 1%, e a Alemanha praticamente parou no tempo. À primeira vista, parece que Trump entregou prosperidade mesmo navegando contra ventos que ele mesmo criou — deportações em massa de trabalhadores migrantes e guerras comerciais sem roteiro claro.

Esse desempenho surpreendeu até críticos ferrenhos. Alguns passaram a sussurrar que, talvez, as políticas não fossem tão destrutivas quanto a teoria econômica convencional previa. Mas há outra pergunta igualmente válida: e se a economia pudesse estar indo muito melhor? Quanto a bagunça política está custando aos americanos?

A revista The Economist tentou responder a isso quantificando três grandes forças que puxaram a economia para cima — e medindo o quanto as decisões de Trump frearam esse impulso.

O boom da inteligência artificial foi o primeiro e mais poderoso desses motores. Só quatro gigantes da computação em nuvem — Alphabet, Amazon, Meta e Microsoft — gastaram mais de US$ 350 bilhões em infraestrutura de IA em 2025. A projeção para 2026 dobra esse valor: cerca de US$ 700 bilhões.

Esse dinheiro gerou uma demanda crescente por data centers, chips, sistemas de resfriamento e software. O investimento real nessas categorias cresceu mais de 15% em 2025, contribuindo com quase um ponto percentual no crescimento anualizado do PIB — quase metade de toda a expansão econômica do ano.

Existe, porém, um detalhe importante. Dois terços dos gastos com data centers vão para equipamentos, grande parte importada da Coreia do Sul e de Taiwan. Quando se desconta o que saiu do país, a contribuição real desse boom para o PIB americano cai para cerca de 0,2 ponto percentual. Ainda assim, é um número relevante.

O mercado de ações entrou como segundo motor. Entre a vitória eleitoral de Trump e o fim de 2025, o índice S&P 500 subiu cerca de 15% em termos reais. Isso acrescentou aproximadamente US$ 5 trilhões à riqueza das famílias americanas. Usando uma estimativa conservadora — cada dólar de patrimônio líquido gera cerca de dois centavos de consumo no primeiro ano —, esse efeito riqueza provavelmente elevou o consumo em US$ 100 bilhões e adicionou 0,3 ponto percentual ao crescimento.

As políticas pró-crescimento do próprio Trump formam o terceiro motor. Seu governo facilitou fusões corporativas, reduziu burocracia em agências federais e afrouxou restrições ao crédito privado. A reforma tributária de 2025 tornou permanentes cortes nos impostos corporativos, permitiu que empresas deduzissem gastos com pesquisa e desenvolvimento e acelerou a depreciação de ativos. Projeções do Escritório de Orçamento do Congresso (CBO), da Tax Foundation e do Yale Budget Lab estimam que essas medidas adicionaram cerca de 0,2 ponto percentual ao crescimento em 2025.

Somando os três fatores, a economia poderia ter crescido perto de 2,7% — mais de meio ponto acima do registrado.

Agora entra a outra metade da equação: o custo das políticas destrutivas.

As tarifas de Trump reduziram o crescimento real em cerca de 0,2 ponto percentual, segundo o Instituto Peterson, ao comprimir o poder de compra das famílias e as margens das empresas. As deportações em massa e o fechamento efetivo das fronteiras tornaram a migração líquida negativa em 2025 — algo inédito em pelo menos meio século. Menos imigrantes significam menos trabalhadores e menos consumidores. O resultado foi mais 0,2 ponto percentual subtraídos do crescimento.

Mas o custo mais pesado é o menos visível: a incerteza. Tarifas anunciadas, adiadas, revisadas e retomadas. Agentes de imigração mobilizados e realocados sem aviso. Um índice de incerteza da política econômica desenvolvido por pesquisadores da Universidade Northwestern subiu mais de 100 pontos entre a eleição de Trump e o final de 2025. Oscilações desse porte costumam reduzir o investimento empresarial entre cinco e dez pontos percentuais.

Os dados confirmam esse pessimismo. Se excluirmos os gastos com equipamentos de processamento de informações e softwares diretamente ligados à IA, o investimento fixo não residencial contraiu a uma taxa anualizada de cerca de 3% nos últimos quatro trimestres. Na década anterior, esse mesmo indicador crescia em média mais de 5% ao ano.

A queda é generalizada: equipamentos industriais e de transporte recuaram mais de 2%, a construção industrial despencou 20% e o total do investimento não relacionado à IA está cerca de US$ 130 bilhões abaixo da tendência histórica. Esse buraco subtrai aproximadamente 0,4 ponto percentual do crescimento.

Uma pesquisa do Banco da Reserva Federal de Atlanta revelou que 45% dos executivos planejavam cortar investimentos justamente por causa da incerteza política. Não é coincidência.

Somando tarifas, migração e retração nos investimentos, o “imposto MAGA” chega a 0,8 ponto percentual do crescimento. Esse número bate com a diferença entre o crescimento potencial e o registrado.

Para o futuro, não há sinais de alívio. As tarifas seguem instáveis. O conflito no Irã e o fechamento efetivo do Estreito de Ormuz provocaram um choque energético que comprime ainda mais os rendimentos reais e as margens das empresas.

Há, porém, uma conclusão que não deve ser ignorada: apesar de tudo isso, a máquina econômica americana continua funcionando. O PIB pode crescer a uma taxa anual de 4% no trimestre atual, segundo projeções em tempo real do Federal Reserve de Atlanta. Sem o peso das políticas caóticas, os Estados Unidos poderiam estar crescendo perto de 5% ao ano — um desempenho que o país alcançou em apenas nove trimestres neste século inteiro.

A potência está lá. O que falta é um presidente que permita que ela funcione.

Rhyan de Meira: Rhyan de Meira é jornalista pela Universidade Federal Fluminense, escreve sobre política, economia e carnaval. É repórter, redator e editor dos site O Cafezinho e Rio Carta. / Contato: Redes: @rhyandemeira / Email: rhyandemeira@hotmail.com
Related Post

Privacidade e cookies: Este site utiliza cookies. Ao continuar a usar este site, você concorda com seu uso.