O senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato à Presidência pelo PL, foi emparedado pela própria versão dos fatos. Nesta terça-feira (19), ele admitiu ter visitado o banqueiro Daniel Vorcaro no fim de 2025, logo depois da primeira prisão do dono do Banco Master, derrubando por completo a narrativa de que não mantinha relação alguma com o investigado.
Na época do encontro, Vorcaro já respondia pelas fraudes milionárias do caso Master e cumpria medidas restritivas em São Paulo, incluindo o uso de tornozeleira eletrônica. A revelação foi feita pelo site Metrópoles enquanto Flávio participava de uma reunião com aliados na sede do PL, em Brasília, e confirmada pelo Jornal Nacional.
Cercado por deputados do partido, o senador tentou justificar o encontro com uma explicação que mais agrava do que alivia sua situação. Ele afirmou que foi ‘botar um ponto final nessa história’ após perceber que a situação era ‘muito mais grave’ do que imaginava, e disse que, se soubesse da gravidade antes, teria procurado outro investidor para o filme sobre o pai.
A confissão representa o terceiro recuo público de Flávio Bolsonaro em menos de uma semana. No dia 13 de maio, ao ser questionado por um repórter sobre o financiamento de Vorcaro ao longa-metragem, o senador foi categórico: ‘É mentira. De onde você tirou isso?’.
Horas depois, no mesmo dia, veio a primeira retratação. O site Intercept Brasil revelou áudios e mensagens que mostravam Flávio pedindo dinheiro diretamente ao banqueiro, e o senador passou a admitir o contrato de financiamento, alegando que Vorcaro havia deixado de honrar as parcelas e que outros investidores precisaram ser acionados para concluir o projeto.
No dia seguinte, novo recuo. Flávio reconheceu que os recursos de Vorcaro foram canalizados para a conta do advogado Paulo Calixto nos Estados Unidos, profissional de confiança de Eduardo Bolsonaro. A triangulação financeira, coberta por um contrato de confidencialidade que o senador usou como escudo inicial, levanta perguntas inevitáveis sobre a origem e o destino do dinheiro.
A produtora Goup Entertainment, responsável pelo filme, fechou o cerco. Karina Ferreira Gama, dona da empresa, declarou à TV Globo que o projeto consumiu US$ 13 milhões até agora, e que Daniel Vorcaro foi o responsável por mais de 90% da verba que viabilizou a produção, atuando como intermediador dos recursos.
As revelações não param nas movimentações financeiras. Nesta terça-feira, o Intercept Brasil publicou novas mensagens do deputado federal Mário Frias, do PL, ex-secretário de Cultura do governo Bolsonaro e produtor executivo do filme, agradecendo a Vorcaro pelo apoio financeiro ao projeto e prometendo mantê-lo informado sobre o andamento.
O áudio de Mário Frias, enviado em 11 de dezembro de 2024, expõe a naturalidade da relação entre o banqueiro investigado e o núcleo duro do bolsonarismo. A conversa ocorreu menos de uma hora depois de um encontro presencial entre Vorcaro e o próprio Flávio Bolsonaro em Brasília, no qual discutiram justamente o financiamento do filme.
A sequência de contradições gerou um clima de desconfiança na bancada do PL, conforme apontou o comentarista Gerson Camarotti. Deputados aliados agora se perguntam o que mais o pré-candidato pode ter omitido sobre sua relação com o dono do Banco Master, e se há outros esquemas de financiamento ainda não revelados.
O escândalo atinge em cheio a pré-campanha presidencial do senador. Cada nova evidência que contraria suas declarações públicas enfraquece o discurso de quem pretendia se apresentar como alternativa de direita, e expõe uma rede de financiamento opaco que orbita a família Bolsonaro com impressionante desenvoltura.
O Banco Master está sob investigação, Daniel Vorcaro é réu em processo por fraudes milionárias, e o filme sobre Jair Bolsonaro aparece como a ponta visível de um iceberg financeiro que o clã tenta esconder. A esta altura, a pergunta que ecoa no Congresso e nas redações não é mais se houve irregularidade, mas qual o tamanho real do escândalo que Flávio Bolsonaro tentou abafar.
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