A divulgação do áudio em que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) negocia recursos com o banqueiro Daniel Vorcaro, então controlador do Banco Master, já não é apenas um escândalo nacional. O episódio começa a contaminar as alianças estaduais da direita, e Santa Catarina se tornou o laboratório mais visível desse racha.
A gravação, revelada pelo site Intercept Brasil e repercutida pelo portal GCD, mostra Flávio discutindo valores para a produção do filme ‘Dark Horse’, centrado na trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro. O projeto, segundo o áudio, previa R$ 124 milhões em captação, dos quais apenas R$ 61 milhões teriam sido efetivamente pagos.
Flávio Bolsonaro reagiu negando irregularidades e tentou inverter a narrativa: passou a associar o Banco Master ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Durante visita a Santa Catarina, chegou a vestir uma camiseta com a frase ‘O Pix é de Bolsonaro, o Master é de Lula’.
A manobra, porém, perdeu força assim que o áudio se tornou público. Integrantes do governo federal passaram a expor a contradição: afinal, era o senador quem aparecia na gravação negociando diretamente com Vorcaro.
O impacto político já alcança a disputa pelo eleitorado conservador em Santa Catarina. O governador Jorginho Mello (PL) aposta no alinhamento direto com o bolsonarismo como pilar de sua campanha à reeleição.
Sua estratégia inclui a aproximação com Flávio Bolsonaro, a possível candidatura de Carlos Bolsonaro ao Senado e o apoio à deputada federal Carol De Toni. Além disso, Jorginho articula uma composição com o ex-prefeito de Joinville, Adriano Silva, ligado ao partido Novo.
Enquanto isso, partidos tradicionais do estado ensaiam apoio ao prefeito de Chapecó, João Rodrigues, que também busca capturar o eleitorado conservador. A fragmentação expõe uma direita catarinense que já não marcha unida.
O racha ganhou contornos ainda mais nítidos com a declaração do ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema (Novo), pré-candidato à Presidência. Zema foi o primeiro nome relevante da direita a criticar publicamente a conversa de Flávio com Vorcaro, classificando como inaceitável qualquer pedido de dinheiro ao banqueiro.
A crítica ganha peso extra porque Zema desembarca em Santa Catarina entre os dias 16 e 18 de maio para uma série de agendas políticas. A visita cria constrangimento direto para Adriano Silva, aliado de Jorginho Mello e integrante do Novo, partido que agora vê seu presidenciável se distanciar abertamente do bolsonarismo.
O que o caso catarinense revela é que o áudio de Flávio Bolsonaro não produziu apenas desgaste eleitoral imediato. Ele está funcionando como um catalisador de contradições que já existiam no campo conservador, expondo a dificuldade de a direita manter palanques estaduais sólidos quando o nome que deveria unificá-los se torna um ativo cada vez mais tóxico.
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