Flávio Bolsonaro admite contrato com Vorcaro e derruba própria narrativa contra o PT

Reportagem do The Intercept Brasil, baseada em mensagens e áudios vazados, aponta que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) admitiu ter negociado com o banqueiro Daniel Vorcaro para financiar um filme sobre seu pai, Jair Bolsonaro. O dado é relevante, mas a pergunta política é mais ampla: até que ponto a estratégia de associar o escândalo do Banco Master exclusivamente ao PT e Lula era uma farsa?

A confissão de Flávio veio após semanas de negativas e acusações infundadas. Ele chegou a afirmar que a ligação com Vorcaro era ‘mentira’ e que o escândalo ‘é a cara da esquerda’. A mudança abrupta de discurso expõe a fragilidade da narrativa bolsonarista e revela a extensão das relações do banqueiro com a extrema direita.

Conforme a BBC News Brasil detalhou, Flávio havia repetido até a véspera que a ligação com Vorcaro era ‘mentira’. Ele também insistia que o escândalo ‘é a cara da esquerda’.

O senador chegou a usar uma camiseta com os dizeres ‘O Pix é do Bolsonaro; o Master é do Lula’ em evento de pré-campanha. Ele também defendeu uma CPMI para investigar supostos esquemas petistas no banco. Essas ações demonstravam uma clara intenção de desviar o foco do escândalo para adversários políticos.

Porém, após a revelação das conversas em que cobrava pagamentos do banqueiro, Flávio mudou o tom. Disse que se tratava de um ‘patrocínio privado para um filme privado’. Ele explicou que conheceu Vorcaro em dezembro de 2024, quando o governo Bolsonaro já havia terminado. Também afirmou que havia um contrato formal, descumprido pelo banqueiro.

Afirmou ainda que não ofereceu vantagens, não intermediou negócios com o governo e não recebeu dinheiro. Essa tentativa de diferenciar seu caso das ‘relações espúrias’ que atribui ao entorno de Lula soa como uma defesa frágil, especialmente diante das evidências concretas apresentadas.

Entretanto, as declarações atuais colidem frontalmente com as negativas anteriores. Elas também colidem com a campanha de associação exclusiva do Master ao lulopetismo. Em março, Flávio disse que ‘essa conta do Banco Master está longe de chegar perto da direita’. Ele também afirmou que a narrativa sobre envolvimento da família Bolsonaro era ‘falsa’.

No mesmo mês, o senador pediu a delação de Vorcaro para ‘entregar tudo o que sabe’. Sempre sugeria, porém, que os alvos seriam petistas como Jaques Wagner e Rui Costa. Agora, o fio se inverteu e o próprio Flávio aparece como um dos que buscaram recursos do banqueiro. Isso levanta questionamentos sobre contrapartidas e a real influência do Master sobre a oposição.

O episódio torna vulnerável a ofensiva bolsonarista. Ele expõe o risco que a CPMI do Banco Master representa para a direita, pois o depoimento de Vorcaro pode envolver também aliados do ex-presidente. A tentativa de colar o caso apenas em adversários políticos revelou-se uma aposta perdida. O constrangimento para Flávio Bolsonaro cresce à medida que detalhes do financiamento ao filme vierem à tona.

Ao admitir o contrato, o senador derrubou a pilastra central de sua própria estratégia de comunicação. E o dano político tende a se aprofundar com o avanço das investigações. O caso mostra que a rede de relações de Vorcaro alcança tanto a esquerda quanto a extrema direita, e que a tentativa de isolar o escândalo a um único lado do espectro político foi, no mínimo, irresponsável.


Leia também: Flávio Bolsonaro admite visita a Vorcaro após prisão e expõe cadeia de mentiras sobre relação com banqueiro


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