O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, admitiu a disparidade na capacidade do país no Ártico ao comparar a frota de rompehielos russa com a americana. Em discurso na Academia da Guarda Costeira dos Estados Unidos, em New London, Connecticut, Trump destacou que a Rússia possui 48 rompehielos enquanto os EUA contam apenas com um navio considerado muito antigo.
Esta diferença qualificou Trump de ridícula, afirmando que compromete a capacidade norte-americana na região Ártica. O mandatário explicou que visitou a Finlândia, país conhecido por fabricar os melhores rompehielos, para fechar um acordo de construção com o presidente finlandês.
Segundo Trump, o primeiro rompehielos do novo programa será entregue em 2028, e ele pretende estar presente na cerimônia de inauguração. O presidente dos EUA revelou que o país tentou fabricar seu próprio rompehielos, mas o resultado foi um navio pesado na proa que não funcionaria adequadamente.
Eu disse: vou estar aqui em 2028, afirmou Trump, indicando seu desejo de participar da cerimônia de lançamento do navio. O acordo prevê a construção de 11 rompehielos no total, alguns deles nos Estados Unidos.
O presidente russo, Vladimir Putin, havia afirmado anteriormente que seu país constrói rompehielos como nenhuma outra nação, destacando que a Rússia tem sido por décadas o líder na exploração do Ártico. A frota russa se destaca tanto pelo número de unidades quanto pela composição dos barcos.
O rompehielos Stalingrado, construído nos estaleiros Baltiisk em São Petersburgo, é o sexto rompehielos atômico em série do projeto 22220. Esses navos deslocam 33.500 toneladas, medem 173,3 metros de comprimento e 34 de largura, com reatores que entregam 60 megawatts de potência às hélices, permitindo abrir caminho através de gelo de até três metros de espessura.
Rússia é o único país do mundo capaz de produzir em série potentes e confiáveis rompehielos atômicos, utilizando suas próprias tecnologias nacionais, destacou Putin. O presidente russo garantiu que, apesar das dificuldades atuais, o país continuará ampliando as capacidades de sua frota, desenvolvendo a construção naval nacional e criando avanços científicos e tecnológicos revolucionários.
Trump prometeu que os Estados Unidos se dotarão de pelo menos 55 rompehielos, buscando reduzir a lacuna tecnológica com a Rússia na região Ártica, onde a presença naval e a capacidade de navegação em águas congeladas representam um fator estratégico.
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Luan Silva
21/05/2026
Faz o L e rema no gelo, kkk.
Cristina Rocha
21/05/2026
O riso de Luan Silva é instrutivo. Não por aquilo que ele supõe comunicar — uma zombaria fácil contra a esquerda, encapsulada no bordão que tenta reduzir um projeto político inteiro a um gesto de submissão caricatural —, mas pelo que ele revela involuntariamente sobre a gramática política contemporânea. O “kkk” que encerra a intervenção é o selo de uma era em que a complexidade geopolítica precisa ser comprimida em memes para se tornar digerível, e no entanto, quanto mais se comprime, mais escapa o essencial. Quando rimos da hipótese de “remar no gelo”, estamos rindo exatamente de quê? Da suposta impotência de um país do Sul global que ousa imaginar-se protagonista de sua própria política externa? Da desproporção entre a ambição de soberania e a crueza dos meios materiais? Se for isso, o riso é só a ponta visível de um longo processo de internalização da inferioridade que Frantz Fanon já diagnosticava nos condenados da terra. A piada não ofende a esquerda; ela ofende a possibilidade mesma de imaginar um mundo que não se curve à lógica das potências árticas.
Há aqui um curioso deslocamento. O comentário ri da esquerda, mas o artigo que estamos discutindo trata justamente do reconhecimento, por parte de um presidente da ultradireita estadunidense, de que a supremacia russa no Ártico não se resolve com bravata de mercado, e sim com planejamento estatal de longo prazo e investimento em capacidade industrial — exatamente o tipo de política que a esquerda defende e que o consenso neoliberal passou décadas demonizando como “ineficiente” ou “autoritária”. Trump, com seu faro tosco para a correlação de forças, acaba de dar razão a quem sempre sustentou que soberania nacional exige Estado forte, coordenação estratégica e desprezo pelas ficções do livre-comércio quando está em jogo a sobrevivência geopolítica. Quem “rema no gelo”, na metáfora tosca de Luan, são justamente aqueles que acreditam que o mercado resolve tudo: estão patinando sem direção enquanto os russos, herdeiros do planejamento soviético, navegam com rota traçada. A ironia suprema é que o sujeito da piada se vê como antagônico ao “L”, mas defende uma Rússia cuja frota de quebra-gelos é produto de um modelo econômico muito mais próximo do intervencionismo estatal do que do liberalismo que ele provavelmente aplaude.
E aqui entra o trabalho da filosofia: desnaturalizar o nexo que a ideologia dominante solda entre “competência” e masculinidade bélica. O deboche de Luan participa de uma longa tradição de ridicularização do corpo político não-viril — a esquerda seria “fraca”, “ingênua”, “lacradora”, enquanto a direita, ostentando canhões e quebra-gelos, encarnaria o realismo do poder. É a velha cisão entre o duro e o mole que a teoria feminista expõe como constitutiva do imaginário patriarcal de Estado. Mas convenhamos: não há nada mais frágil do que a necessidade de afirmar potência pela via exclusiva da força bruta. O Ártico não se conquista com testosterona; se conquista com décadas de investimento em engenharia, metalurgia, logística e formação de pessoal especializado — áreas em que os Estados Unidos se descobrem agora atrasados justamente porque preferiram terceirizar sua base industrial para países de mão de obra barata enquanto financiavam bolhas especulativas. Se há um “faz o L” nessa história, é o eleitorado estadunidense que acreditou por quarenta anos que o Consenso de Washington bastava para garantir hegemonia, e agora descobre que precisa correr atrás do prejuízo enquanto a Rússia e a China ocupam os espaços deixados pelo vazio estratégico.
Termino com um apontamento pedagógico, porque sou professora e não resisto. O problema de reduzir o debate a “faz o L e rema no gelo” não é apenas a indigência intelectual — é que esse tipo de enunciado bloqueia a capacidade de aprender com a realidade. Quando a realidade mostrar, como está mostrando, que a geopolítica não se dobra a piadas de zap, o sujeito que só sabe operar nesse registro ficará sem ferramentas para entender o que aconteceu. Ficará repetindo chavões enquanto o mundo se reorganiza sob as regras da força, da astúcia diplomática e do planejamento de longo prazo — regras que pedem uma esquerda adulta, capaz de articular soberania popular com inserção internacional inteligente, e não os estereótipos que Luan consome como fast-food cognitivo. Rir é bom, claro. Mas rir da própria miopia é um luxo que países periféricos não podem se dar.
Paulo Rocha
21/05/2026
É o que acontece quando se gasta dinheiro com pauta identitária em vez de defesa nacional. Enquanto isso a Rússia avança no Ártico porque não perde tempo com lacração. O Brasil devia aprender: país forte é país armado, não ‘faz o L’ para Cuba.
Clarice Historiadora
21/05/2026
Ah, sim, a clássica teoria do “país forte ignora a sociologia e compra canhão” — devia estar nos anais da Escola de Chicago, mas infelizmente o único a subscrevê-la foi um general de pijama no grupo da família. Enquanto você idealiza a Rússia como se fosse um conto de Tolstói sem as páginas sobre miséria e repressão, esquece que Moscou mantém uma gigantesca “pauta identitária” própria: só que em vez de direitos civis, a deles se chama criminalizar dissidência e subsidiar igreja ortodoxa. Sugiro a leitura do brilhante sociólogo húngaro (e meu gato) István Bolyai, que em A Geopolítica do Membrismo define com precisão essa síndrome: “confundir frota naval com projeto de nação é o primeiro sintoma da masculinidade frágil aplicada à política externa”.
João Carvalho
21/05/2026
Reduzir a capacidade de quebra-gelos a uma caricatura do “gasto identitário” ignora que a supremacia russa no Ártico é herança do planejamento soviético e de uma geografia que exige presença polar, enquanto os EUA depauperaram seus estaleiros pela fé neoliberal no mercado. No Brasil, o que nos enfraquece não é a solidariedade a Cuba, mas a ausência de um projeto industrial de longo prazo — aliás, uma pauta bem pouco “lacradora”.