O Desenrola 2 começa a entrar no radar dos brasileiros endividados como uma das principais apostas econômicas do governo Lula para aliviar o orçamento das famílias.
Pesquisa Datafolha mostra que 68% dos brasileiros com dívidas acreditam que serão beneficiados diretamente pela nova fase do programa de renegociação. O número revela um grau elevado de expectativa em um país onde o endividamento deixou de ser exceção e virou parte da rotina de milhões de famílias.
O levantamento também aponta que 82% dos endividados avaliam que o Desenrola 2 terá impacto positivo para a economia brasileira como um todo. Entre todos os entrevistados, endividados ou não, 77% dizem estar otimistas com os efeitos do programa sobre a atividade econômica.
O dado é politicamente relevante porque mostra que o programa ultrapassa a lógica de uma simples renegociação bancária. Para boa parte da população, limpar o nome significa voltar a comprar, recuperar crédito, reorganizar a vida financeira e respirar depois de meses ou anos de aperto.
Segundo o Datafolha, 62% dos brasileiros tomaram conhecimento do Desenrola 2. O percentual indica que o programa já alcançou capilaridade nacional antes mesmo de produzir todos os seus efeitos práticos. Entre os mais otimistas estão os jovens, moradores do Nordeste e eleitores de Lula.
A pesquisa mostra ainda que 53% dos brasileiros acreditam que sentirão no próprio bolso os impactos positivos do novo Desenrola. Desse total, 34% dizem que serão muito beneficiados e 19% afirmam que serão beneficiados um pouco. Outros 40% não esperam benefício pessoal direto.
O impacto familiar também aparece no levantamento. De acordo com a Folha, 33% dos entrevistados acreditam que seus familiares serão muito beneficiados pelo programa, enquanto 20% esperam algum benefício. Já 41% dizem que seus familiares não devem ser beneficiados.
O contexto ajuda a explicar a força do tema. O Datafolha aponta que 47% dos entrevistados dizem ter dívidas, incluindo empréstimos com bancos e financeiras, faturas de cartão de crédito, uso do cheque especial e financiamentos. Entre os endividados, 62% afirmam que os compromissos financeiros já viraram inadimplência, com contas ou parcelas em atraso.
Esse é o núcleo social do problema. O Brasil não enfrenta apenas uma crise de crédito. Enfrenta uma crise de renda disponível, juros altos, orçamento comprimido e famílias presas em dívidas que crescem mais rápido do que a capacidade de pagamento.
Dados da Serasa reforçam a dimensão do desafio. O país chegou a 82,8 milhões de inadimplentes, o equivalente a 50,5% da população adulta. As principais dívidas negativadas estão concentradas em bancos, contas básicas, financeiras e serviços.
O peso dos bancos é decisivo. Segundo a Serasa, 47% dos débitos ativos estão no setor financeiro. Os bancos representam 27% de todas as dívidas negativadas no país, seguidos por contas básicas como água, luz e gás.
No caso das dívidas bancárias, o cartão de crédito aparece como o grande vilão. Levantamento da Serasa citado pelo UOL mostra que 73% dos endividados com bancos têm pendências no cartão. Crédito pessoal aparece com 56%, e cheque especial, com 33%.
Esse retrato explica por que uma política de renegociação pode ter efeito macroeconômico. Quando uma família limpa o nome, ela pode voltar ao mercado formal de crédito, renegociar juros, reorganizar o consumo e reduzir a dependência de modalidades caras.
O Desenrola 2, portanto, atua em uma fronteira sensível entre política social e política econômica. Ao aliviar dívidas, o governo tenta destravar parte do consumo das famílias sem recorrer apenas a aumento direto de gastos públicos.
A medida também tem efeito político evidente. Endividamento é um tema concreto, sentido no caixa do supermercado, na fatura do cartão, no boleto atrasado e na negativa de crédito. Programas que mexem nesse problema tendem a produzir percepção imediata de governo atuando sobre a vida real.
Para Lula, o Desenrola 2 pode se tornar uma vitrine em um momento em que a economia, o crédito e a renda serão centrais na disputa de 2026. O apoio de 68% entre endividados mostra que o programa fala com um eleitorado numeroso e pressionado.
Mas o desafio será transformar expectativa em resultado. O sucesso dependerá dos descontos oferecidos, da adesão de bancos e empresas, da facilidade de acesso às plataformas e da capacidade de incluir quem está mais distante do sistema financeiro digital.
O Brasil tem 332 milhões de dívidas registradas em 2026, volume 43% maior do que o de 2016, segundo dados da Serasa Experian divulgados pelo UOL. A dívida média por consumidor passou de R$ 5.880,02 para R$ 6.598,13, em valores corrigidos pela inflação.
Esse dado mostra que o problema é estrutural. Não basta renegociar uma vez. É preciso combinar crédito mais barato, emprego, renda, educação financeira, redução dos juros abusivos e regras que impeçam a bola de neve da inadimplência.
Ainda assim, o Datafolha revela que o Desenrola 2 começa com capital político relevante. O programa é conhecido por mais de 6 em cada 10 brasileiros e visto de forma positiva pela maioria dos endividados.
Em um país onde metade da população adulta está negativada, limpar o nome virou política econômica de massa. O Desenrola 2 não resolve sozinho o problema da inadimplência brasileira, mas pode abrir uma porta importante para milhões de famílias voltarem a respirar — e para a economia recuperar parte do consumo travado pelas dívidas.