Simulações revelam que Mercúrio ganhou toda sua água gelada em um único dia

Superfície de Mercúrio com crateras, algumas delas destacadas em amarelo. (Foto: newscientist.com)

O planeta Mercúrio pode ter adquirido toda a sua água congelada de uma só vez, em menos de uma jornada completa de 176 dias terrestres, de acordo com simulações recém-publicadas. A descoberta muda a compreensão sobre os depósitos de gelo detectados nas crateras polares daquele mundo abrasador, onde as temperaturas diurnas ultrapassam os 430 graus Celsius.

A sonda Messenger, da NASA, mapeou esses reservatórios entre 2011 e 2015, revelando camadas de gelo com vários metros de profundidade, algo surpreendente para o planeta mais próximo do Sol. Desde então, a comunidade científica buscava entender como essa água resistiu ao implacável bombardeio da radiação solar.

Estudos anteriores levantavam a hipótese de que um corpo semelhante a um cometa, com aproximadamente 17 quilômetros de diâmetro e velocidade de 30 quilômetros por segundo, teria causado o impacto. Entretanto, as novas simulações computacionais, lideradas por Parvathy Prem, do Laboratório de Física Aplicada Johns Hopkins, nos Estados Unidos, sugerem um cenário diferente e ainda mais dramático.

Diferentemente do estimado antes, o modelo aponta para um projétil maior, porém mais lento, capaz de vaporizar quase completamente ao atingir o solo, gerando a imensa cratera Hokusai, que domina a paisagem mercuriana. Durante a colisão, uma atmosfera extremamente tênue, mas carregada de vapor d’água, teria envolvido temporariamente o planeta.

Conforme detalhado pelo site New Scientist, os pesquisadores constataram que pouco mais de 20% do vapor d’água oriundo do impacto conseguiu migrar para as zonas polares permanentemente sombreadas. Ali, as moléculas encontraram refúgio do calor e da radiação, congelando-se e acumulando os depósitos observados hoje.

Prem explica que, embora essa atmosfera fosse invisível a olho nu, na faixa certa de comprimentos de onda o planeta teria brilhado por um breve período. A simulação também indica que todo o processo – da vaporização à deposição do gelo – transcorreu em um único dia mercuriano, o equivalente a 176 dias na Terra.

A quantidade de água que se fixou, segundo o modelo, é maior do que a estimada por cálculos anteriores, aproximando-se das medições diretas da Messenger. Para Emily Costello, cientista da Universidade do Havaí, isso torna esse dia o mais agitado da história recente de Mercúrio nos últimos bilhões de anos.

Além de desvendar o gelo mercuriano, o estudo ajuda a explicar por que a Lua, tão similar em tamanho e composição, não exibe depósitos polares semelhantes. Costello resume: Mercúrio experimentou uma entrega massiva de água, enquanto à nossa Lua faltou um evento equivalente.

A pesquisa, publicada no Journal of Geophysical Research: Planets, também ilumina a questão maior de como a água se distribuiu pelo sistema solar interno, incluindo a Terra. A próxima missão BepiColombo, uma parceria entre as agências espaciais europeia e japonesa, chegará a Mercúrio ainda este ano para investigar diretamente essas reservas de gelo e validar as simulações.

Com informações de NEWSCIENTIST.


📨 Inscreva-se na Newsletter de O Cafezinho

Receba nossas análises e as principais notícias diárias do Brasil e do Sul Global.

Redação:
Related Post

Privacidade e cookies: Este site utiliza cookies. Ao continuar a usar este site, você concorda com seu uso.