Quando se fala em incêndios florestais, a imagem que surge é de chamas e fumaça. No entanto, para muitas comunidades, os danos mais graves à água potável começam justamente quando o fogo termina.
Uma ampla revisão de 23 estudos, publicada pelo portal Phys.org, revelou a extensão desse problema. A pesquisa analisou 28 bacias hidrográficas e constatou que os contaminantes viajam muito além da cicatriz da queimada.
As paisagens queimadas perdem a vegetação que antes segurava o solo e retardava a chuva. Com isso, a primeira tempestade carrega enormes volumes de cinzas e sedimentos orgânicos para rios e reservatórios.
Esse pulso de detritos causa turbidez extrema, sobrecarregando as estações de tratamento e entupindo os filtros. Além da sujeira visível, os cientistas alertam para a presença de hidrocarbonetos policíclicos aromáticos (HPAs), substâncias cancerígenas que aderem às partículas de fuligem.
Os riscos são agravados pelos produtos químicos usados no combate ao fogo. Muitos retardantes de chama contêm fosfatos, o que pode provocar surtos de proliferação de algas tóxicas quando atingem os corpos d’água.
O estudo também destaca que a vulnerabilidade do solo à erosão aumenta dramaticamente após os incêndios, liberando metais pesados na água por anos. A magnitude do impacto depende da gravidade da queimada, da inclinação do terreno e da proximidade com os mananciais.
Pequenas cidades e comunidades rurais, com infraestrutura de tratamento mais precária, são as que mais sofrem as consequências negligenciadas. Diferentemente dos grandes centros, esses locais raramente possuem sistemas flexíveis para absorver o choque de contaminação.
A pesquisa propõe que a proteção das fontes de água seja incorporada aos planos de preparação para desastres climáticos. Os governos precisam mapear as bacias hidrográficas mais vulneráveis e agir de forma preventiva antes que novas tragédias ocorram.
Outro ponto crítico é o investimento em monitoramento em tempo real da qualidade da água. Sem dados imediatos após os desastres, as companhias de abastecimento são forçadas a reagir tardiamente, expondo a população a riscos.
À medida que o planeta aquece e as temporadas de incêndio se tornam mais intensas, o legado tóxico deixado nas águas tende a piorar. Reconhecer isso significa admitir que a crise climática é também uma crise hídrica de longa duração, muito além da extinção da última chama.
Leia mais sobre o assunto na phys.org.
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