Denúncia de ex-assessora empurra Mário Frias para novo escândalo e expõe suspeita de “rachadinha” na Câmara

O deputado federal Mário Frias entrou em uma nova crise política após uma ex-assessora relatar que devolvia a maior parte do salário recebido na Câmara dos Deputados.

Segundo reportagem do G1 repercutida pelo Brasil 247, Gardênia Morais, ex-secretária parlamentar do gabinete de Frias, afirmou que repassava valores ao então chefe de gabinete Raphael Azevedo e a pessoas ligadas ao entorno do deputado. Ela trabalhou no gabinete entre fevereiro de 2023 e maio de 2024.

O caso ganhou força porque os documentos citados pela reportagem apontam que Gardênia teria devolvido até 76% dos valores recebidos durante sua atuação na Câmara. A denúncia atinge diretamente um dos nomes mais próximos do bolsonarismo e também ligado ao filme Dark Horse, produção sobre Jair Bolsonaro que entrou no centro do caso Daniel Vorcaro.

De acordo com o Brasil 247, os extratos analisados mostram salários líquidos que variavam entre R$ 10 mil e R$ 21 mil. Parte desses valores era transferida para outra conta da própria ex-assessora e depois repassada a Raphael Azevedo, familiares dele e pessoas próximas ao gabinete.

Gardênia afirmou que o esquema seguia uma lógica mensal. “O meu salário foi subindo gradativamente. Lá na Câmara a gente tem os ‘steps’. No final, estava girando em torno de R$ 20 mil. Me restavam, em média, de R$ 6 mil a R$ 7 mil. Eu devolvia todos os meses, de acordo com o meu ‘step’”, declarou.

A frase é forte porque descreve uma rotina de devolução salarial, prática conhecida no meio político como “rachadinha”. Embora o termo não seja um tipo penal específico, casos semelhantes costumam ser investigados pelo Ministério Público como possível peculato, quando há suspeita de desvio de dinheiro público por meio de salários de assessores.

A ex-assessora também afirmou que Mário Frias tinha conhecimento das devoluções. “O deputado sabia, o deputado estava ciente de todas as devoluções. Foi um combinado inicial, o deputado sempre participa. E depois as tratativas do dia a dia ocorriam com o Azevedo, que na época era o chefe de gabinete, braço direito do deputado”, disse.

Os comprovantes obtidos pela reportagem identificam pelo menos R$ 35.116 em repasses. Entre os registros estão transferências de R$ 4,6 mil, R$ 5 mil e R$ 4 mil feitas diretamente para Raphael Azevedo ao longo de 2023 e 2024. Gardênia, porém, afirmou que os valores devolvidos foram maiores que os documentados até agora.

A denúncia também envolve familiares do parlamentar. Um comprovante mostra um Pix de R$ 1 mil enviado por Gardênia para Maria Lucia Frias, mãe de Mário Frias, em janeiro de 2024. Outro documento aponta o pagamento de uma fatura de cartão de crédito de Juliana Frias, esposa do deputado, no valor de R$ 4.832,32, em dezembro de 2023.

Outro dado chama atenção: os extratos mostram um saque de R$ 49.999,99 em espécie feito por Gardênia em março de 2024. Segundo a reportagem, o dinheiro havia sido depositado anteriormente por Raphael Azevedo e pela esposa dele, transferido para outra conta da ex-assessora e sacado no dia seguinte. O destino final do valor não foi identificado.

Gardênia também relatou ter feito cinco empréstimos consignados que somaram R$ 174.886. Segundo ela, apenas um foi usado para fins pessoais. Os demais, afirmou, teriam sido solicitados por Mário Frias e Raphael Azevedo para quitar dívidas da campanha de 2022.

“Dos cinco empréstimos, um é meu particular. No restante, todos foram feitos a pedido do deputado e do Raphael Azevedo para quitar dívidas de campanha [de 2022]. Os empréstimos foram feitos e eles não foram quitados, estão todos em aberto no Serasa”, afirmou a ex-assessora.

O relato adiciona uma camada grave ao caso. Se confirmada, a suspeita não envolveria apenas devolução de salários, mas também possível uso da estrutura de gabinete para cobrir despesas políticas anteriores ao mandato.

O atual chefe de gabinete de Mário Frias, Diego Ramos, afirmou desconhecer as suspeitas porque assumiu a função depois do período citado. Segundo ele, o deputado também não teria conhecimento das acusações. Ramos declarou ainda que “aparentemente são ex-funcionários aproveitando a situação midiática”. Raphael Azevedo não respondeu aos questionamentos enviados pela reportagem.

É importante registrar que Mário Frias, Raphael Azevedo e os demais citados têm direito à defesa, ao contraditório e à presunção de inocência. A existência de documentos e relatos não equivale a condenação. Mas o conjunto de informações divulgado cria uma pressão política evidente sobre o deputado.

A denúncia chega em um momento delicado para Frias. Ele já vinha sendo citado no caso Dark Horse, o filme sobre Jair Bolsonaro financiado, segundo revelações recentes, com recursos negociados por Flávio Bolsonaro junto a Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master.

Agora, além da crise envolvendo o filme, Frias passa a enfrentar uma suspeita que toca um dos temas mais tóxicos da política brasileira: o uso de salários de assessores para alimentar estruturas paralelas de poder.

Para o bolsonarismo, o desgaste é duplo. O grupo político tenta sustentar a candidatura de Flávio Bolsonaro em 2026 enquanto acumula crises envolvendo dinheiro, gabinete, financiamento privado, Banco Master e denúncias de devolução salarial.

O caso ainda depende de investigação formal, análise de extratos, depoimentos e eventual atuação do Ministério Público ou da Câmara. Mas o impacto político já está instalado.

A pergunta central agora é direta: se uma assessora devolvia até 76% do que recebia, pagava despesas de familiares do deputado e fazia empréstimos supostamente pedidos pelo gabinete, quem se beneficiava desse dinheiro?

Enquanto essa resposta não vier, Mário Frias terá dificuldade para tratar o caso como simples disputa narrativa. A denúncia apresenta nomes, valores, comprovantes e uma ex-funcionária disposta a dizer que o deputado sabia. Em Brasília, isso costuma ser apenas o começo de uma crise.

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