Uma descoberta arqueológica na Etiópia pode reescrever o capítulo mais remoto dos rituais funerários humanos, ao revelar ossos de Homo sapiens com cerca de 100 mil anos que apresentam sinais inequívocos de exposição ao fogo intenso. O estudo, publicado no periódico Proceedings of the National Academy of Sciences, analisou fragmentos ósseos e um dente molar que exibem rachaduras, escurecimento e carbonização compatíveis com temperaturas muito acima das registradas em incêndios florestais naturais.
Os trabalhos de escavação foram conduzidos em Middle Awash, na região da Fenda de Afar, nordeste da Etiópia, um dos sítios arqueológicos mais importantes do mundo para o estudo da evolução humana. A área acumula mais de um quilômetro de sedimentos depositados ao longo de milhões de anos, formando um registro natural que abrange desde o período Mioceno, há 23 milhões de anos, até o Holoceno atual.
Os danos térmicos encontrados nos ossos se assemelham de forma impressionante aos padrões observados em cremações modernas analisadas por peritos forenses, segundo os autores da pesquisa. A intensidade do calor aplicado sugere algo deliberado, e não fruto do acaso, indicando que os primeiros Homo sapiens da região podem ter praticado alguma forma de cremação intencional.
Além das marcas de queima, os fragmentos ósseos também apresentavam mordidas provavelmente deixadas por predadores, sugerindo que o corpo foi exposto após o processo de cremação. Próximo aos restos humanos, a equipe recolheu duas lascas de pedra e outros pequenos vestígios de hominídeos igualmente submetidos ao fogo.
De acordo com reportagem do Olhar Digital, os pesquisadores mantêm cautela antes de confirmar a hipótese de cremação ritual ou funerária, uma vez que o local apresenta indícios de queimadas intensas por causas naturais. Novas evidências serão necessárias para distinguir com segurança um ato cultural de um acidente geológico.
A pesquisa também lança luz sobre a íntima relação entre os antigos habitantes e o ambiente dinâmico da região, marcada pelas cheias sazonais do antigo rio Awash. As variações nos ciclos das águas tiveram impacto direto na ocupação humana, moldando deslocamentos e períodos de retorno que acompanhavam a disponibilidade de recursos naturais.
Milhares de ferramentas de pedra coletadas ao longo de décadas em Middle Awash permaneceram praticamente intactas em suas posições originais, incluindo peças produzidas com obsidiana, o que permitiu análises detalhadas da organização espacial dos grupos humanos. A análise de mais de três mil fósseis de animais, incluindo macacos, roedores e grandes mamíferos, ajudou a reconstruir um ecossistema de fauna bastante diversificada.
Os autores do estudo destacam que descobertas em áreas abertas como Middle Awash são raras e extremamente valiosas para a arqueologia mundial. Enquanto grande parte do conhecimento sobre a origem humano na África provém de cavernas, os sítios a céu aberto oferecem uma visão mais ampla da rotina e do deslocamento dos primeiros seres humanos, revelando dimensões da vida pré-histórica que permaneceriam ocultas sob abrigos rochosos.
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