A crise do filme Dark Horse ganhou uma confissão política de alto impacto dentro do próprio PL.
O presidente nacional do partido, Valdemar Costa Neto, afirmou que Daniel Vorcaro financiou a cinebiografia de Jair Bolsonaro porque queria “estar bem” com a família Bolsonaro. A declaração foi dada à GloboNews nesta segunda-feira, 25 de maio, e transforma a versão de simples patrocínio privado em um problema político ainda maior para Flávio Bolsonaro.
“Porque ele queria estar bem com a família Bolsonaro. Nós vamos ganhar a Presidência de novo. Quem não quer estar bem com o presidente da República?”, disse Valdemar, segundo a coluna de Andréia Sadi, do G1, repercutida pelo Brasil 247.
A frase é devastadora porque aponta uma motivação eleitoral e de aproximação com poder. Até aqui, Flávio Bolsonaro vinha sustentando que a busca por recursos junto a Vorcaro era apenas um patrocínio privado para um filme privado sobre seu pai, sem contrapartida política ou vantagem indevida. A fala de Valdemar muda o eixo da discussão.
O dirigente do PL também admitiu que Flávio procurou Vorcaro depois para tentar receber o restante do dinheiro prometido ao filme. Segundo o ICL Notícias, Valdemar afirmou que o senador foi à casa do ex-banqueiro, em Brasília, para “ver se conseguia o restante do dinheiro”, mesmo após Vorcaro já ter sido alvo de investigação e estar em prisão domiciliar com tornozeleira eletrônica.
Esse ponto amplia o desgaste. Não se trata apenas de uma negociação antiga, feita antes do escândalo do Banco Master ganhar força. A declaração de Valdemar indica que Flávio voltou a procurar Vorcaro quando o ex-controlador do banco já enfrentava problemas judiciais graves.
A Reuters registrou que Flávio confirmou ter se encontrado com Vorcaro depois da prisão e soltura do banqueiro com tornozeleira eletrônica. O senador disse que o encontro ocorreu no fim de 2025 para encerrar as tratativas de investimento no filme após os problemas legais de Vorcaro surgirem.
A explicação de Flávio, porém, fica mais difícil diante da fala de Valdemar. Se o objetivo era apenas encerrar tratativas, por que o presidente do PL diz que o senador foi buscar o restante do dinheiro?
O filme Dark Horse, estrelado por Jim Caviezel e dirigido por Cyrus Nowrasteh, virou o centro de uma crise que ameaça a pré-candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência. A Reuters informou que Vorcaro teria prometido US$ 24 milhões para financiar a obra, embora a produtora GOUP Entertainment negue ter recebido qualquer dinheiro do ex-controlador do Banco Master.
O Financial Times também destacou que o caso ameaça afundar a candidatura de Flávio, ao ligar o senador a um banqueiro envolvido em uma fraude bilionária. Segundo o jornal, o escândalo ganhou peso porque atinge justamente o principal nome conservador contra Lula em 2026.
O Banco Master foi liquidado em meio a investigações sobre carteiras de crédito fraudulentas e um esquema que, segundo autoridades, movimentou bilhões de reais. Vorcaro foi preso novamente em março sob acusação de subornar um ex-diretor do Banco Central, conforme registrou a Reuters.
É nesse contexto que a fala de Valdemar se torna politicamente explosiva. O presidente do PL não tratou o financiamento como uma aposta cultural, artística ou empresarial. Tratou como uma tentativa de aproximação com uma família que, segundo ele, voltaria ao poder.
A frase “quem não quer estar bem com o presidente da República?” expõe o que adversários de Flávio vêm apontando desde o início do caso: a relação entre dinheiro privado, expectativa de poder político e tentativa de construção de uma candidatura presidencial.
Flávio nega irregularidades e afirma que não ofereceu contrapartida a Vorcaro. Ele tem direito à defesa, ao contraditório e à presunção de inocência. Mas a crise política não depende apenas de condenação. Depende de percepção pública, coerência das versões e capacidade de explicar por que um banqueiro investigado por fraude bilionária queria financiar um filme sobre Jair Bolsonaro.
Valdemar, ao tentar defender Flávio, acabou criando outro problema. Sua fala sugere que Vorcaro enxergava no financiamento uma forma de se aproximar do núcleo bolsonarista em um cenário de eventual retorno ao poder.
Para uma candidatura presidencial, isso é grave. Um candidato pode sobreviver a ataques de adversários. Mas tem mais dificuldade quando o próprio presidente de seu partido oferece uma explicação que reforça a suspeita de interesse político por trás do dinheiro.
O caso também enfraquece a narrativa bolsonarista de perseguição. A crise não nasceu de uma acusação isolada da esquerda. Ela agora inclui áudios, mensagens, reportagens internacionais, admissão de contato por Flávio e uma declaração do presidente do PL sobre a motivação de Vorcaro.
A direita entra, assim, em um dilema. Insistir em Flávio significa carregar o peso do caso Dark Horse, da relação com Vorcaro e das contradições públicas. Trocar de nome significa admitir que a candidatura do herdeiro bolsonarista foi danificada antes mesmo da largada oficial.
Para Lula, o episódio abre uma janela política. Flávio vinha aparecendo competitivo nas pesquisas, mas agora precisa explicar uma relação financeira que se tornou tóxica. Em vez de falar de programa, alianças e futuro, o senador está preso a perguntas sobre dinheiro, filme, banqueiro e expectativa de poder.
A declaração de Valdemar é um divisor de águas porque tira o caso do terreno da ambiguidade. Ao dizer que Vorcaro queria “estar bem” com a família Bolsonaro, o presidente do PL deu ao escândalo uma leitura política clara.
O filme que deveria fortalecer a imagem de Jair Bolsonaro virou um foco de desgaste para seus filhos. E, depois da fala de Valdemar, ficou ainda mais difícil sustentar que tudo não passava de um simples patrocínio privado sem interesse político.