Bastão de madeira de 430 mil anos na Grécia desafia o mito da Idade da Pedra

Ilustração editorial sobre Bastão de madeira de 430 mil anos na Grécia desafia o mito da Idade da Pedra. (Ilustração: Cafezinho / Wan 2.6)

À sombra de uma mina de lignito a céu aberto na bacia de Megalópolis, no sul da Grécia, arqueólogos desenterraram o mais antigo utensílio de madeira portátil já conhecido, um bastão com surpreendentes 430 mil anos de idade. O achado, localizado no sítio Marathousa 1, recua a cronologia do uso de ferramentas de madeira em expressivos 40 mil anos e desafia a hegemonia do conceito de ‘Idade da Pedra’.

As escavações, conduzidas entre 2013 e 2019, expuseram camadas de sedimento até então inacessíveis e revelaram um cenário excepcional: o esqueleto quase completo de um elefante de presas retas (Palaeoloxodon antiquus) ostentando inequívocas marcas de açougue, lado a lado com restos de hipopótamos, tartarugas, aves e uma vasta coleção de mais de 2 mil instrumentos de pedra. Esse conjunto diversificado indica que a região era uma rica margem lacustre, verdadeiro oásis em meio a uma Europa varrida por um período glacial de brutal intensidade.

A preservação excepcional da madeira se deveu ao soterramento rápido em sedimentos finos e à ausência de oxigênio, condições que impediram a ação de microrganismos decompositores ao longo dos milênios. A datação por luminescência opticamente estimulada confirmou a idade dos estratos, ancorando o achado no Paleolítico Inferior e tornando-o ainda mais antigo que as famosas lanças de Schöningen, na Alemanha.

Há 430 mil anos, o continente europeu enfrentava uma das mais severas fases glaciais do Pleistoceno, com geleiras avançando e temperaturas despencando, mas o microclima da bacia de Megalópolis teria atuado como um microrefúgio que preservou condições amenas e recursos vitais. Katerina Harvati, paleoantropóloga da Universidade de Tübingen, na Alemanha, e líder do estudo, sublinha que o local ‘permite aceder a períodos e sedimentos que, de outra forma, estariam enterrados’, oferecendo uma janela única para a adaptabilidade humana.

A presença de hipopótamos e tartarugas indica que o lago era perene e de águas calmas, um ecossistema rico que atraía grandes herbívoros e, por extensão, os grupos humanos que deles se alimentavam. Marcas de corte nos ossos do elefante sugerem que os hominínios desarticulavam a carcaça com ferramentas de pedra, enquanto a madeira podia servir para mover ou raspar tecidos.

A equipe de escavação utilizou uma abordagem meticulosa, documentando a posição tridimensional de cada fragmento de madeira para reconstruir o contexto de deposição. Esse cuidado revelou que o bastão foi abandonado junto aos restos do elefante, sugerindo um elo funcional entre o instrumento e a atividade de açougue.

O artefato central, um bastão de 81 centímetros esculpido em um tronco de amieiro, carrega marcas inconfundíveis de corte e entalhe, com uma extremidade arredondada que servia de empunhadura e a outra achatada, exibindo sinais de desgaste e esfacelamento. Para Annemieke Milks, arqueóloga da Universidade de Reading e coautora da pesquisa, as marcas são provas claras de que humanos moldaram a madeira deliberadamente.

A análise microscópica revelou que o artesão removeu a casca com golpes controlados e depois alisou a superfície, provavelmente com o auxílio de lascas de pedra afiadas e areia. Esse processo demonstra um planejamento sequencial e uma compreensão das propriedades mecânicas da madeira que desafiam estereótipos de uma mente primitiva.

A capacidade de conceber um bastão multifuncional que servia tanto para cavar quanto para processar carne revela uma flexibilidade cognitiva que os arqueólogos costumam associar apenas a humanos modernos. Para o paleoantropólogo Manuel Domínguez-Rodrigo, da Universidade de Alcalá, na Espanha, ‘essas ferramentas de madeira mostram que a mente dos hominínios do Pleistoceno Médio já operava com categorias abstratas de ferramentas e usos múltiplos’.

A morfologia do bastão se assemelha a instrumentos de escavação modernos, o que leva os cientistas a crer que hominínios o manejavam para desenterrar tubérculos, mas sua descoberta aninhada entre os ossos do elefante abatido insinua um uso potencial no processamento da carcaça gigantesca. A própria Harvati confessou ao The New York Times que nunca tentou cortar um elefante, mas admitiu que a hipótese é plausível, ainda que enigmática.

O segundo artefato de madeira é uma peça minúscula, de apenas 5,7 centímetros, feita de salgueiro ou choupo e completamente descascada e polida, com uma ponta arredondada e perfurada. Classificado como um tipo totalmente novo de ferramenta de madeira, talvez um retocador para bordas de lascas de pedra, seu propósito exato continua um mistério impossível de desvendar.

Nenhum fóssil de hominínio foi encontrado em Marathousa 1, o que impede atribuir a autoria a uma espécie específica. Harvati sugere que os fabricantes podem ter sido pré-Neandertais, provavelmente Homo heidelbergensis, embora ressalte que a Grécia era uma encruzilhada de linhagens humanas, e Milks não descarta a presença de Neandertais muito primitivos.

A importância de Marathousa 1 transcende o bastão em si, pois o sítio fornece evidências de que os hominínios do Pleistoceno Médio exploravam ativamente ambientes lacustres, caçando grandes mamíferos e coletando recursos vegetais. Essa adaptabilidade ecológica pode ter sido crucial para a sobrevivência em uma Europa assolada por flutuações climáticas extremas.

O estudo, publicado nos Proceedings of the National Academy of Sciences e divulgado em reportagem do ZME Science, expõe um viés profundo na arqueologia: a pedra sobrevive ao tempo, mas a madeira e outros materiais orgânicos se decompõem com facilidade, distorcendo nossa imagem do passado. Prova disso são os achados complementares, como o martelo de osso de elefante com 500 mil anos encontrado em Boxgrove, na Inglaterra, e as toras interligadas de 476 mil anos do sítio de Kalambo Falls, na Zâmbia, que podem ter integrado uma plataforma ou abrigo.

O achado grego também ecoa descobertas similares na África e na Ásia, onde ferramentas de madeira de centenas de milhares de anos atestam uma tradição tecnológica amplamente subestimada. À luz dessas evidências, a narrativa linear da evolução humana baseada apenas na pedra lascada parece cada vez mais insuficiente.

Silvia Bello, do Museu de História Natural de Londres, explicou que o martelo de Boxgrove foi golpeado repetidamente contra pedra, com pequenos fragmentos de sílex incrustados no osso comprovando sua função especializada. Já o bastão grego e o retocador de madeira ilustram uma interação portátil e íntima com o mundo natural, exigindo uma cognição diferente da necessária para erguer estruturas.

Para Milks, a descoberta ‘realmente nos ajuda a compreender como os humanos do passado remoto faziam uso de tantos materiais e recursos diferentes ao seu redor’. Dirk Leder, do Escritório Estadual de Patrimônio Cultural da Baixa Saxônia, na Alemanha, reforça que artefatos de madeira pré-históricos são ‘muito escassos’ e que ‘cada novo achado é bem-vindo’.

A arqueóloga Linda Hurcombe, da Universidade de Exeter, defende que devemos imaginar um mundo paleolítico repleto de cestos, cordas e recipientes de casca de árvore, cujos vestígios raramente sobrevivem. Essa ‘cultura perecível’ era, na verdade, a espinha dorsal da vida cotidiana, e Marathousa 1 oferece um raro vislumbre desse universo esquecido.

O biólogo evolucionista Thomas Terberger, da Universidade de Göttingen, na Alemanha, comentou que ‘ferramentas de madeira eram provavelmente tão importantes quanto as de pedra, mas sua raridade distorce nossa percepção’. Essa constatação exige uma revisão dos museus e livros didáticos, que ainda retratam o passado como um domínio exclusivo da pedra lascada.

À medida que sítios alagadiços revelam objetos perecíveis, a imagem da ‘Idade da Pedra’ se desfaz, dando lugar a um retrato mais complexo de ancestrais que dominavam a floresta com a mesma habilidade que a pedreira. A madeira, afinal, não foi um coadjuvante na saga humana, mas uma aliada silenciosa que sustentou a vida durante um dos períodos mais gélidos da história europeia.


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