Cientistas descobrem cenote oculto sob a Pirâmide de Chichén Itzá que serve de portal ao submundo maia

A pirâmide de El Castillo em Chichén Itzá, no México, vista sob céu nublado. (Foto: timesofindia.indiatimes.com)

El Castillo, a imponente pirâmide que domina o sítio arqueológico de Chichén Itzá, no México, esconde um segredo que permaneceu inalterado por mais de mil anos. Abaixo de suas fundações de calcário, uma equipe de geofísicos descobriu um cenote oculto – uma caverna cárstica preenchida por água cristalina – que ressignifica todo o conjunto arquitetônico.

Conhecida por sua simetria quase perfeita e pelo espetáculo da serpente emplumada durante os equinócios, a pirâmide já intrigava arqueólogos por conter outras duas estruturas menores em seu interior. O processo de construção revelava um sistema de ‘matriosca’ de pedra, onde cada nova camada envolvia templos ancestrais em cascas cada vez mais monumentais.

O achado da caverna submersa, porém, transportou o mistério do eixo horizontal para o vertical de maneira surpreendente. A imponente edificação de 30 metros de altura não era apenas um templo celestial, mas um ponto de contato expressamente planejado entre o mundo terreno e o inframundo maia.

A investigação, detalhada pelo Times of India a partir de um estudo publicado na revista Scientific Reports, utilizou tecnologia de imageamento por resistividade elétrica não invasiva. O método permitiu mapear o subsolo com precisão tridimensional sem perturbar uma única pedra da frágil ruína pré-colombiana.

O estudo científico, intitulado ‘Karst Detection Beneath the Pyramid of El Castillo, Chichen Itza, Mexico, by Non-Invasive ERT-3D Methods’, enviou correntes elétricas seguras pelo solo rochoso. A análise da forma como essas correntes se propagavam em profundidade revelou uma vasta cavidade cárstica saturada de água, exatamente sob o centro da pirâmide.

Para os antigos maias, os cenotes não eram simples fontes de água doce em uma península de Yucatán onde rios de superfície são praticamente inexistentes. Eram portais sagrados para Xibalba, o temido e venerado submundo da mitologia maia, morada dos deuses da morte e palco de jornadas iniciáticas.

Ao erguer El Castillo sobre essa caverna inundada, os construtores maias estabeleciam uma ligação simbólica deliberada com as potências do além. A pirâmide tornava-se assim um eixo cósmico que alinhava os três planos da existência: o céu, a terra dos humanos e o submundo espiritual.

A simbologia solar também está inscrita na arquitetura externa, com 91 degraus em cada uma das quatro faces, totalizando 364, mais a plataforma superior que completa os 365 dias do ano. A estrutura funcionava como um gigantesco calendário de pedra que se iluminava nos equinócios, projetando a sombra de uma serpente ondulante pela balaustrada norte.

A nova descoberta subterrânea amplia a visão de trânsito entre realidades que aquela civilização cultivava. O edifício não apenas marcava a passagem do tempo celestial, rastreando solstícios e equinócios, mas também canalizava as forças telúricas da escuridão generativa do inframundo.

O portal de Xibalba, batizado pela cultura pop como uma espécie de ‘inferno’ maia, representava na verdade um plano de transformação e morada dos ancestrais, cheio de provações e sabedoria oculta. O cenote sob a pirâmide legitimava o poder espiritual do centro cerimonial, reforçando a ideia de que o lugar foi escolhido por uma razão geossagrada profundíssima.

A equipe de geofísicos conseguiu esse feito notável recorrendo exclusivamente à tomografia de resistividade elétrica em três dimensões, uma técnica que mapeia variações de condutividade do subsolo. Os resultados comprovam que a escolha do local não foi aleatória, mas sim a materialização de um conhecimento telúrico sofisticado que a ciência moderna só agora começa a decifrar.

Chichén Itzá, declarada Patrimônio da Humanidade pela UNESCO em 1988, já fascinava viajantes e arqueólogos por sua disposição astronômica e acústica engenhosa. A revelação do cenote subterrâneo descortina as razões profundas pelas quais aqueles povos escolheram exatamente aquele pedaço de terra, ligando o sítio a uma rede de cavernas inundadas que os maias consideravam veias do cosmos.

Mesmo sem perfurar o solo ou deslocar uma lasca de calcário, a tecnologia moderna expôs a espinha dorsal mística da pirâmide. O monumento, que antes simbolizava a ascensão ao céu, hoje também aponta para baixo, reiterando a certeza maia de que o grande mistério habita igualmente nas profundezas.


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