Valdemar Costa Neto tentou defender Flávio Bolsonaro, mas acabou expondo o tamanho da crise que atinge a pré-candidatura do senador ao Planalto.
O presidente nacional do PL admitiu que o caso Daniel Vorcaro produziu desgaste sobre Flávio, mas descartou trocar o candidato por Michelle Bolsonaro. Em entrevista à GloboNews, Valdemar afirmou que a ex-primeira-dama “está fora de questão” para a disputa presidencial de 2026.
“Não passa isso pela nossa cabeça. Ele é o candidato do Bolsonaro e nós vamos até o fim nessa história”, disse Valdemar, ao rejeitar a hipótese de substituir Flávio por Michelle. A fala mostra que o PL, por enquanto, decidiu bancar o senador mesmo depois da crise aberta pela relação com Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master.
O problema é que, na mesma entrevista, Valdemar deu munição aos adversários. Ele afirmou que Flávio visitou Vorcaro depois da primeira prisão do banqueiro para “ver se conseguia o restante do dinheiro” destinado ao filme Dark Horse, produção sobre Jair Bolsonaro. Segundo a Folha, o dirigente tratou o encontro como algo normal e disse que o PL manterá a candidatura de Flávio “até o fim”.
A frase é politicamente devastadora porque desmonta parte da tentativa de blindagem construída pelo entorno bolsonarista. Até aqui, Flávio vinha sustentando que sua relação com Vorcaro se limitava a um patrocínio privado para um filme privado sobre o pai, sem contrapartida política. Ao dizer que o senador foi atrás do “restante do dinheiro”, Valdemar recolocou no centro da crise o ponto mais sensível: a cobrança de recursos a um banqueiro já envolvido em problemas judiciais.
A Reuters registrou que Flávio confirmou ter se encontrado com Daniel Vorcaro depois da prisão e posterior soltura do banqueiro com tornozeleira eletrônica. O senador afirmou que o encontro ocorreu no fim de 2025 para encerrar as tratativas de investimento no filme após os problemas legais de Vorcaro surgirem.
A versão de Flávio, porém, fica pressionada pela fala de Valdemar. Se a reunião era para encerrar a negociação, por que o presidente do PL afirmou que o objetivo era tentar obter o restante do dinheiro?
Esse é o tipo de contradição que pesa em uma pré-campanha presidencial. O desgaste não depende apenas de prova criminal. Depende da percepção pública de que há versões diferentes para explicar a mesma relação: dinheiro, filme político, banqueiro investigado e expectativa de poder.
Valdemar também tentou reduzir o peso do episódio ao dizer que Vorcaro era “enrolado, mas fazer o quê?”, segundo a Folha. A frase, em vez de aliviar, reforça a fragilidade da defesa. Se o próprio presidente do partido reconhece que o financiador era uma figura problemática, fica mais difícil apresentar a negociação como algo banal.
O caso Dark Horse já vinha corroendo a candidatura de Flávio. O filme sobre Jair Bolsonaro, que deveria funcionar como peça de reconstrução simbólica do bolsonarismo, virou uma fonte de crise. A relação com Vorcaro passou a associar o senador a um escândalo financeiro de grande alcance e a uma disputa pública sobre origem, destino e finalidade dos recursos.
Segundo a Reuters, Vorcaro era dono do Banco Master, liquidado em novembro por carteiras de crédito fraudulentas, e foi preso novamente em março sob acusação de subornar um ex-diretor do Banco Central. Esse contexto torna a proximidade com Flávio muito mais difícil de explicar politicamente.
A decisão de Valdemar de descartar Michelle também revela o dilema interno do PL. A ex-primeira-dama poderia aparecer como alternativa menos atingida diretamente pelo caso Vorcaro, mas sua candidatura abriria outra disputa dentro do bolsonarismo: quem controla o legado de Jair Bolsonaro, a família ou a direção partidária?
Ao dizer que Michelle “está fora de questão”, Valdemar tenta impedir uma debandada antes da hora. O comando do PL sabe que abrir discussão pública sobre substituição de candidato agora seria admitir que Flávio sangrou antes mesmo da campanha oficial começar.
Mas bancar Flávio também tem custo. O senador já entrou em zona de desgaste, e cada nova explicação sobre Vorcaro parece ampliar a crise. O problema deixou de ser apenas a existência da relação. Passou a ser a sucessão de versões, encontros, valores e justificativas.
A situação fica ainda mais delicada porque Flávio vinha tentando se consolidar como o principal nome da direita contra Lula em 2026. O apoio de Jair Bolsonaro havia sido tratado como tentativa de unificar o campo conservador, mas também gerou divisões entre setores que preferiam nomes como Tarcísio de Freitas ou Michelle Bolsonaro. A Reuters registrou que o lançamento de Flávio surpreendeu mercados e aprofundou rachas na direita.
Agora, com o caso Vorcaro, a candidatura passa a carregar um problema adicional: em vez de discutir programa, economia, segurança ou alianças, Flávio precisa explicar por que buscou dinheiro com um banqueiro envolvido em um dos maiores escândalos financeiros recentes do país.
Valdemar tentou fechar a crise dizendo que o PL irá “até o fim” com Flávio. Mas sua própria entrevista mostrou que o fim pode estar mais longe do que o partido imagina. Ao admitir o desgaste, descartar Michelle e revelar detalhes sobre a ida de Flávio a Vorcaro, o presidente do PL acabou expondo a engrenagem de uma candidatura sob pressão.
Para Lula, o cenário é favorável. O principal adversário bolsonarista passa mais tempo se defendendo do que atacando. Para a direita, o dilema permanece: insistir em Flávio é carregar o caso Vorcaro; trocar de nome é admitir que a candidatura escolhida por Bolsonaro pode não sobreviver ao primeiro grande teste.
A fala de Valdemar mostra que o PL ainda tenta controlar a sucessão de 2026. Mas também revela que o partido já sabe o tamanho do estrago. Michelle está fora de questão, Flávio continua de pé, mas a crise deixou claro que a direita entrou na disputa presidencial com uma candidatura ferida antes da largada.