A construção do desvio ferroviário Imuriz–Nogales, no estado mexicano de Sonora, revelou um tesouro arqueológico inesperado quando máquinas removeram as primeiras camadas de terra. O achado surpreendeu até os especialistas mais experientes, que não esperavam tamanha densidade de ocupação humana pré-hispânica tão perto da atual fronteira com os Estados Unidos.
O assentamento, batizado de La Sienega, ocupa uma área de 250 por 250 metros no vale e cânion do Rio Cocospera, com evidências de cerca de 60 moradias. Antes das escavações, os arqueólogos conheciam apenas uma dezena de estruturas no local, o que sublinha a magnitude da descoberta.
As habitações, escavadas entre 1 e 2,2 metros abaixo do solo, apresentavam formatos ovais e retangulares que foram sendo remodelados por sucessivas gerações. Os especialistas acreditam que esses espaços formavam complexos familiares onde a vida comunitária se renovava ciclicamente.
Duas zonas funerárias foram identificadas, contendo mais de 100 restos humanos em diferentes modalidades de sepultamento. Cerca de 40 corpos estavam dispostos em posição flexionada, enquanto outras 28 cremações tiveram seus resquícios ósseos armazenados em vasos cerâmicos.
Em algumas tumbas, ornamentos de conchas sugerem uma estratificação social incipiente dentro da comunidade. Dois sítios com arte rupestre também foram localizados nas imediações, ampliando o repertório cultural do assentamento.
Os detalhes da notável descoberta foram reunidos em uma reportagem do portal UA.NEWS, que cita o Instituto Nacional de Antropologia e História do México (INAH). O trabalho de resgate foi conduzido por equipes do INAH durante a construção da linha férrea, com o objetivo de preservar qualquer vestígio arqueológico afetado pela obra.
A intervenção arqueológica foi realizada em caráter emergencial, já que a construção da ferrovia exigia prazos apertados. Felizmente, a coordenação entre os engenheiros e os especialistas do INAH permitiu resgatar um acervo inestimável de informações sem comprometer o andamento do projeto.
Para os pesquisadores mexicanos, o sítio de La Sienega oferece uma janela sem precedentes sobre a organização social e as práticas funerárias das comunidades que habitaram a região entre os séculos VII e IX. A complexidade das moradias e a diversidade dos rituais fúnebres desafiam ideias simplistas sobre os povos do norte do México.
As evidências indicam que o assentamento funcionava como um ponto fronteiriço crucial para o intercâmbio de recursos entre diferentes culturas pré-hispânicas. A localização estratégica, com acesso a terras férteis e à fonte permanente de água do Rio Cocospera, foi decisiva para a escolha do local.
A descoberta de La Sienega sublinha a importância da arqueologia de resgate em grandes obras de infraestrutura, revelando mundos ocultos que, de outra forma, permaneceriam sepultados. Cada metro cúbico de terra removido pode esconder um capítulo ainda não escrito da trajetória humana.
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