O áudio em que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) pediu dinheiro ao banqueiro Daniel Vorcaro para financiar um filme sobre o pai não foi apenas um episódio constrangedor. Ele reconfigurou a correlação de forças na corrida ao Planalto e consolidou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) como favorito para 2026.
A mais recente pesquisa Meio/Ideia, divulgada nesta quinta-feira, 28, mostra Lula com 46,5% das intenções de voto contra 41,4% de Flávio em um eventual segundo turno. Três semanas antes, na rodada anterior, os dois estavam empatados tecnicamente — Flávio tinha 45,3% e Lula, 44,7%.
A perda de 3,9 pontos percentuais do pré-candidato do PL é o retrato de uma candidatura que entrou em declínio acelerado. Enquanto Lula se mantém estável na faixa dos 46% em todos os confrontos, Flávio sangra sobretudo entre eleitores de centro-direita, mais jovens e mais ricos — exatamente as faixas que compunham seu colchão eleitoral.
A margem de erro de 2,5 pontos percentuais permite que a vantagem real oscile de 0,1 ponto até 10,1 pontos, mas a direção é inequívoca. O candidato do clã Bolsonaro já não consegue alcançar o território do empate, e a tendência de queda se consolida.
No primeiro turno, a distância é ainda maior. Lula registra 38,5% das intenções de voto, contra 31,5% de Flávio, uma diferença de sete pontos percentuais que torna remota a hipótese de o senador herdar a vaga da direita para o segundo turno com força competitiva.
A pesquisa também revela a pulverização da oposição, com o ex-governador Ronaldo Caiado (PSD) marcando 5,5%, Romeu Zema (Novo) 2,4% e Renan Santos (Missão) 2,1%. Indecisos chegam a 10,5%, brancos e nulos a 5,1%, enquanto os demais pré-candidatos, entre eles Aécio Neves (PSDB) e Joaquim Barbosa (DC), que entraram nesta rodada, somam 4,4%.
Se o cenário é desolador para Flávio, a simulação com outros nomes da direita é ainda pior: Michelle Bolsonaro (PL) alcançaria apenas 29,6% contra 38% de Lula, e Tereza Cristina (PP-MS) não passaria de 15,9%. Nem mesmo a forte identificação evangélica de Michelle consegue reter a base, sinal de que o eleitorado religioso não opera de forma automática.
O vazio de liderança na direita é total. O bolsonarismo sem Jair Bolsonaro não transfere lealdade, e o escândalo Vorcaro escancarou a dependência de relações promíscuas com o capital financeiro, justamente o que o discurso antissistema sempre condenou.
Lula vence com folga em todos os cenários de segundo turno testados: 46% a 40% contra Caiado, 46% a 37% contra Zema, 46% a 31% contra Renan Santos e 46% a 26% contra o ex-ministro do STF Joaquim Barbosa. O presidente se consolida como único nome competitivo e como polo de estabilidade em meio à fragmentação adversária.
Há uma ironia histórica difícil de ignorar. Em 2018, os escândalos do centro empurraram Jair Bolsonaro ao Planalto; agora, os escândalos do filho empurram Lula à reeleição. O eleitor troca de herói, mas a lógica persiste: quem se apresenta como antissistema e corteja o sistema acaba cobrado na urna.
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