Fundamentalistas religiosos avançam contra Freud e atacam bases laicas da psicologia

Sigmund Freud e um homem em camisa branca são retratados lado a lado. (Foto: cartacapital.com.br)

O fundamentalismo religioso no Brasil elegeu um novo alvo: Sigmund Freud e os princípios científicos da psicanálise. Após décadas de perseguição às religiões de matriz africana, líderes neopentecostais lançaram uma ofensiva contra as práticas laicas da psicologia, propondo substituir métodos científicos por interpretações bíblicas.

O pastor Rodrigo Mocellin, da Igreja Resgatar Guaratinguetá, com quase 700 mil inscritos no YouTube, resumiu a estratégia em suas redes sociais. Ele questionou qual das mais de 500 abordagens psicológicas oferece Jesus como tratamento, defendendo abertamente a chamada psicologia cristã.

O movimento argumenta que angústias e conflitos existenciais devem ser tratados exclusivamente pela fé cristã. Mocellin indaga se seria ético não usar o que considera o único remédio capaz de curar a culpa, alegando que toda ciência parte de pressupostos religiosos.

No Congresso Nacional, o senador Magno Malta (PL-ES) apresentou o Projeto de Resolução 03, que propõe a criação da Frente Parlamentar Mista em Defesa da Liberdade Religiosa dos Psicólogos Cristãos. A iniciativa busca revogar a Resolução 07 de 2023 do Conselho Federal de Psicologia (CFP), que proíbe o uso de práticas religiosas como método de atendimento psicológico.

O projeto tramita na Comissão de Assuntos Sociais sob relatoria do senador Eduardo Girão (Novo-CE). Paralelamente, o Supremo Tribunal Federal analisa uma Ação Direta de Inconstitucionalidade que pede o reconhecimento da Psicologia Cristã como especialidade profissional, alegando perseguição aos psicólogos alinhados à vertente.

O ministro Alexandre de Moraes, relator do caso, já apresentou parecer favorável à resolução do CFP. O julgamento foi interrompido após pedido de vista do ministro Edson Fachin.

A presidente do CFP, Ivani Oliveira, defende a norma com firmeza. Ela afirma que a Resolução 07 reforça o código de ética profissional, orientando a atuação com base em referenciais científicos e técnicos, não em dogmas religiosos.

Oliveira ressalta que a resolução não proíbe profissionais de terem religião ou frequentarem igrejas. O que a norma estabelece é que a prática psicológica não pode se confundir com doutrinação religiosa.

Na prática, a Psicologia Cristã substitui referências clássicas como Freud, Lacan e Rogers por interpretações literais das Escrituras. A editora Eden Publicações, ao divulgar o livro Psicobaboseira: O Fracasso da Psicologia Moderna e a Alternativa Bíblica, classifica como perigoso o uso de técnicas seculares em abordagens cristãs.

O pastor César Augusto, da Igreja Apostólica Fonte da Vida, afirma que o maior psicólogo do mundo é Jesus. O bispo Walter McAlister, da Igreja Cristã Nova Vida, orienta fiéis a buscarem apenas psicólogos cristãos, alegando que conflitos emocionais têm origem espiritual, não podendo ser fundamentados em comportamento ou traumas.

A pesquisadora Rebeca Maciel, evangélica e doutora em Psicologia Social, relata ter sido vítima dessa abordagem em sessões de terapia. Ela procurou ajuda para questões de relacionamento e foi pressionada a simular uma gravidez com almofada, sob o argumento de que aquela seria a missão da mulher.

Maciel denuncia que a instrumentalização religiosa agrava o sofrimento dos pacientes. Ela afirma que diversas igrejas evangélicas financiam cursos de Psicologia para membros de suas congregações, visando ampliar influência na saúde mental e transformar o atendimento em mecanismo de cooptação religiosa.

A pesquisadora critica o encaminhamento de pacientes para comunidades terapêuticas religiosas em vez de serviços especializados do SUS. Dependentes químicos, pessoas com depressão e até autistas são enviados a espaços religiosos como se o sofrimento fosse puramente espiritual, o que pode configurar iatrogenia.

O historiador Marco Mondaini, professor da Universidade Federal de Pernambuco, analisa o fenômeno como uma apropriação invertida da ideia gramsciana de luta por hegemonia. Ele observa que os ataques se concentram nos cursos de Psicologia, em sintonia com a expansão de cursos EAD em faculdades privadas que disseminam doutrinas como a chamada ideologia de gênero.

A reportagem completa foi publicada pela Carta Capital. O conservadorismo identificou a subjetividade como campo estratégico da guerra cultural e passou a atacar também a psicologia.


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