Um conjunto de ossos humanos queimados, desenterrado na região do Rift de Afar, na Etiópia, pode reescrever completamente a história dos rituais funerários da humanidade. A descoberta, feita no sítio arqueológico de Faro Daba, recua em dezenas de milhares de anos a prática da cremação, inserindo-a num capítulo ainda pouco conhecido do comportamento simbólico do Homo sapiens primitivo.
Os fósseis pertencem ao Membro Halibee inferior da Formação Dawaitoli, na área de estudo de Middle Awash, uma das regiões mais férteis do planeta para a paleoantropologia. Cientistas trabalham ali desde 1981, construindo um dos registros mais ricos da evolução humana na África.
O que torna Faro Daba excepcional é a natureza do próprio sítio: um local a céu aberto, raro para vestígios tão antigos, onde as camadas geológicas permaneceram surpreendentemente intactas. Muitos sítios africanos desta época estão confinados a cavernas ou abrigos rochosos, mas aqui o fluxo de água, a erosão e os movimentos tectônicos pouparam o que os antigos habitantes deixaram para trás.
Milhares de artefatos de pedra emergiram dos sedimentos expostos, muitos ainda repousando em posições originais que revelam padrões de lascamento e descarte. Esse nível de preservação permite aos pesquisadores conectar achados dispersos numa imagem mais nítida do cotidiano destas comunidades.
Entre os vestígios mais perturbadores estão restos humanos cujas superfícies exibem marcas inequívocas de queima em altíssima temperatura. Um molar e fragmentos ósseos adjacentes apresentam rachaduras, carbonização, descoloração e fraturas que, segundo o estudo, são consistentes com uma exposição a fogo excepcionalmente intenso — muito mais quente do que um incêndio natural de savana.
Os autores da pesquisa, publicada no periódico Proceedings of the National Academy of Sciences, sublinham que, num contexto forense moderno, danos como estes levantariam imediatamente a suspeita de cremação intencional. Contudo, o caso está longe de ser encerrado, pois outros elementos complicam o cenário.
Alguns ossos exibem marcas de mordidas de predadores, e há evidências de soterramento rápido pelo regime de cheias sazonais que caracterizava a antiga planície do Rio Awash. A diferença entre um corpo lançado às chamas e um cadáver deliberadamente cremado reside na intenção por trás do gesto, e essa intenção é precisamente o que permanece elusivo.
Se a hipótese da cremação se confirmar, o achado de Faro Daba deslocará a história conhecida desta prática para muito além dos registros seguros que existiam até agora. A evidência mais antiga de cremação fora da África, no Lago Mungo, Austrália, data de aproximadamente 40 mil anos, enquanto os indícios mais claros no continente africano são milhares de anos posteriores.
O paleontólogo Ferhat Kaya, da Universidade de Oulu, destacou em comunicado da equipe que os fatores locais ligados à água e às mudanças ambientais foram mais decisivos do que as variações climáticas globais para moldar a vida naquele antigo ecossistema. A pesquisa ajuda a construir uma compreensão abrangente de como o Homo sapiens primitivo interagia com o seu ambiente.
As cheias sazonais provavelmente determinavam onde os animais se reuniam, onde as plantas cresciam e onde os humanos podiam acampar, e essas mesmas águas podem ter soterrado rapidamente ossos e ferramentas, ajudando a preservar o sítio. Tal dinâmica criou uma janela de preservação que raramente se encontra em contextos a céu aberto.
Algumas das ferramentas líticas encontradas eram feitas de obsidiana, um vidro vulcânico cortante que veio de fontes distantes, sugerindo que estes grupos se deslocavam por longas distâncias e carregavam matérias-primas valiosas. Mais de três mil fósseis de animais, incluindo macacos, roedores e grandes mamíferos, revelam um ecossistema florestal de várzea rico e variado.
O cenário que emerge é o de uma comunidade que conhecia intimamente aquela planície aluvial, retornando em visitas curtas quando as condições eram favoráveis, fabricando ferramentas no local e deixando vestígios de uma clareza incomum. Ainda que a cremação permaneça uma hipótese em aberto, o sítio de Faro Daba consolida-se como um dos registros a céu aberto mais nítidos já encontrados sobre a vida do Homo sapiens há 100 mil anos.
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