O estrago não se limita a um arranhão na campanha de Flávio Bolsonaro. Marca o início de uma deterioração mais funda da candidatura da extrema direita.
O gatilho veio no áudio em que o senador negocia R$ 134 milhões com o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, para financiar um filme sobre o pai. Mas Lula já reagia antes da crise, e parte do eleitorado começava a se descolar de Flávio.
Depois de Atlas, Quaest, Datafolha e BTG/Nexus, a Meio/Ideia divulgada nesta quinta-feira (28) confirma a piora. A repercussão do escândalo, alimentada pela divulgação diária de novas revelações sobre a roubalheira do banqueiro, acelera um movimento já em curso.
Cinco institutos apontam na mesma direção em poucas semanas. Quando pesquisas independentes convergem assim, a tendência supera a margem de erro de qualquer uma delas isoladamente.
No primeiro turno espontâneo, Lula tem 33% contra 18,7% de Flávio. O presidente se manteve estável, enquanto o senador, em alta desde fevereiro, recuou.
No estimulado, Lula abre 7 pontos: 38,5% a 31,5%.
A virada fica mais nítida no segundo turno. No começo de maio a disputa estava empatada tecnicamente, com Lula em 45,3% e Flávio em 44,7%.
O quadro mudou. Flávio caiu para 41,4% e Lula subiu para 46,5%, cinco pontos de diferença a favor do presidente.
A queda do senador move a virada. Em três semanas ele perdeu pouco mais de 3 pontos, enquanto Lula avançou cerca de 1.
Como resumiu Pedro Doria, diretor de jornalismo do Meio:
“A queda de Flávio foi grande em três grupos onde não pode perder. Entre os jovens, na centro-direita e nos que ganham mais de 5 salários. Os jovens e os moderados de direita são fundamentais num 2º turno apertado. Os brasileiros de maior renda são onde está a briga com Lula.”
Entre os eleitores de 16 a 24 anos o tombo impressiona. Flávio tinha 55,2% no começo de maio e despencou para 39,5%.
Lula percorreu o caminho inverso. Saltou de 30% para 48,6% e converteu uma desvantagem de 25 pontos em vantagem de 9.
Na faixa de renda mais alta o golpe se repete com a mesma força. Entre quem ganha mais de 5 salários mínimos, Flávio tinha 30 pontos de vantagem e agora aparece atrás.
Lula subiu de 30,6% para 48,6% nesse grupo, enquanto Flávio recuou de 60,4% para 41,5%. É justamente o território onde a direita costuma dominar.
Há uma simetria curiosa nos números. Lula chega exatamente a 48,6% tanto entre os mais jovens quanto entre os mais ricos, os dois grupos em que a direita apostava para vencer.
Na centro-direita, o senador caiu de 96,3% para 78,3%. Lula avançou de 2,5% para 15,2%, crescimento capaz de decidir um segundo turno apertado.
O mesmo movimento aparece entre os eleitores sem posição política definida. Lula passou de 40,7% para 45,3%, enquanto Flávio caiu de 35,9% para 30,2%.
Um dado incomoda o campo bolsonarista. Numa simulação sem Lula, Fernando Haddad aparece à frente de Flávio no primeiro turno, com 36,5% a 32,7%.
O número desmonta a tese de que a esquerda ficaria órfã sem Lula na disputa. Muda o nome, permanece a vantagem.
A pesquisa perguntou diretamente sobre o caso do áudio. Para 44% dos entrevistados, o episódio piorou a opinião sobre Flávio.
Outros 30,8% disseram que nada mudou, 14,5% afirmaram ter hoje uma opinião melhor e 10,7% não souberam responder.
O dado isolado é nebuloso, e o tamanho real do estrago aparece melhor na intenção de voto do que nessa pergunta. Ainda assim, ele revela uma resiliência relevante do senador.
Somados os que não mudaram de opinião e os que passaram a admirá-lo mais, chega-se a 45,3% do eleitorado intacto diante do episódio. A base dura da direita seguiu firme.
A leitura mais precisa é que o caso não derrubou Flávio sozinho. Ele se somou a um incumbente forte, que já recuperava aprovação e intenção de voto antes do vazamento.
No campo da avaliação, os dados mostram leve recuperação do presidente e do governo. A aprovação de Lula está em 46,6% contra 51,4% de desaprovação.
A avaliação do governo soma 35,6% de ótimo e bom contra 25,4% de péssimo. As notas para economia, segurança pública e educação também melhoraram na margem.
Soma-se a isso a aprovação na Câmara, na quarta-feira (27), da PEC que encerra a escala 6×1 e reduz a jornada para 40 horas semanais. A proposta segue agora para o Senado.
A vitória tem forte apelo popular e reforça o momento positivo do governo. Não garante novo crescimento nas pesquisas, mas ajuda Lula a sustentar a liderança, ainda que modesta.
A Meio/Ideia ouviu 1.500 eleitores por telefone entre 23 e 27 de maio, com margem de erro de 2,5 pontos. O levantamento custou R$ 27,6 mil, com recursos do próprio Meio.
Conduzida por telefone, a pesquisa custa uma fração do que cobram institutos como Datafolha e Quaest em levantamentos presenciais, cujos orçamentos ficam entre 300 e 400 mil reais.