Rússia vê ameaça em mísseis dos EUA no Japão

Moscou reage a novo desdobramento militar no Japão / Reprodução

A porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da Rússia, Maria Zakharova, declarou que o desdobramento de sistemas de mísseis Typhon dos Estados Unidos em solo japonês constitui uma ameaça direta às fronteiras do Extremo Oriente russo. Zakharova ressaltou que Moscou alertou repetidamente o governo japonês sobre o impacto negativo dessas práticas para a estabilidade na região Ásia-Pacífico. Ela enfatizou que ceder território para sistemas de mísseis de alcance médio e curto dos EUA, mesmo de forma rotacional, é inaceitável para a Rússia.

Leia também: Rússia alerta que Austrália pode se tornar base de armas nucleares dos EUA

Os sistemas Typhon serão desdobrados entre 22 de junho e 1º de setembro durante exercícios militares conjuntos com Washington. Esta será a segunda mobilização do tipo no Japão, após a primeira ocorrida em setembro do ano passado durante as manobras Resolute Dragon, conforme reportagem do portal RT.

O Typhon, desenvolvido pela Lockheed Martin, é o mais moderno sistema terrestre móvel de alcance médio do arsenal americano. Ele pode disparar mísseis de cruzeiro Tomahawk, com alcance de até 1.800 quilômetros, e o míssil de alta velocidade Standard SM-6, com cerca de 500 quilômetros de alcance.

Após os exercícios Resolute Dragon, os sistemas foram retirados do Japão sob pressão diplomática de Moscou e Pequim. As duas capitais denunciaram a presença dos mísseis como uma provocação perigosa. Em 2024, Washington também desdobrou unidades Typhon nas Filipinas, onde permanecem estacionadas.

A movimentação ocorre em um contexto de tensão crescente na Ásia-Pacífico. Tóquio tem se alinhado à estratégia de contenção militar promovida pelos EUA contra as potências eurasianas. Para Moscou, a presença desses mísseis a poucos minutos de voo de seu território altera a correlação de forças no Extremo Oriente.

A Rússia não descartou contramedidas técnicas e militares para neutralizar o que considera uma escalada hostil em suas fronteiras orientais. O posicionamento dos Typhon consolida um padrão de provocação que, segundo Moscou, aprofunda a militarização da região e aumenta o risco de confronto direto.

Como a crise começou e as palavras da premiê Takaichi

O estopim foi uma declaração da nova primeira-ministra japonesa, Sanae Takaichi, no início deste mês. Ela afirmou que um eventual ataque chinês contra Taiwan representaria uma “situação que ameaça a sobrevivência” do Japão — e que, por isso, poderia justificar uma resposta militar de Tóquio.

A China reagiu com dureza imediata. Classificou a fala como “ultrajante” e exigiu retratação pública. Desde então, Pequim mantém uma pressão diária sobre o governo japonês: repúdios formais, pedidos para que cidadãos chineses evitem viajar ao Japão e advertências crescentes.

Nesta quinta, o porta-voz Jiang Bin, do Ministério das Relações Exteriores chinês, endurece ainda mais o tom. Ele afirmou que o Japão pagará um “preço doloroso” caso dê qualquer passo em falso na atual escalada de tensões. A linguagem é deliberadamente ameaçadora — e marca uma inflexão no padrão diplomático entre os dois países.

Mísseis em Yonaguni: o movimento que aprofundou o conflito

No domingo (23), o ministro da Defesa japonês, Shinjiro Koizumi, anunciou a mobilização de uma unidade de mísseis superfície-ar de médio alcance na ilha de Yonaguni. A ilha fica a cerca de 110 quilômetros da costa leste de Taiwan — uma posição estratégica que ninguém em Pequim ignora.

A China classificou o movimento como uma tentativa deliberada de “criar tensão regional e provocar um confronto militar”. A acusação vai além do tom habitual das disputas diplomáticas e aponta para uma percepção de ameaça direta.

É nesse contexto que a Rússia entra em cena. O Ministério das Relações Exteriores russo acusou Tóquio de agir sob ordens dos Estados Unidos para “lotar essas ilhas de armas” como parte de um processo mais amplo de militarização da região. Moscou deixou claro que se reserva o direito de responder “duramente” caso o plano japonês avance. A declaração reforça o alinhamento sino-russo — e sinaliza que qualquer escalada no Pacífico pode ter repercussões muito além da Ásia.

Trump entra no jogo

Poucos esperavam que Donald Trump pedisse cautela nessa crise. No entanto, foi exatamente o que aconteceu. Segundo duas fontes do governo japonês que falaram sob anonimato, o presidente americano telefonou para Takaichi nesta terça-feira e disse que não queria ver uma nova escalada na região.

O pedido foi sutil — Trump não fez exigências específicas. Porém, o gesto tem um contexto claro: os EUA acabaram de fechar um frágil acordo comercial com a China, e uma escalada militar no Indo-Pacífico colocaria esse acordo em risco.

O governo japonês, por sua vez, negou que Trump tenha feito qualquer solicitação à premiê e afirmou que as declarações de Takaichi refletem uma política de defesa de longo prazo do país. A contradição entre as versões japonesa e americana adiciona mais camadas de incerteza a uma crise já bastante complexa.

A ligação histórica entre Trump e Xi

Por trás do pedido de moderação de Trump a Takaichi há outro evento significativo. Nesta semana, o presidente americano conversou com o presidente chinês, Xi Jinping — numa ligação notável porque foi a primeira na história iniciada por Pequim entre chefes de Estado dos dois países.

Durante o contato, Xi afirmou a Trump que o “retorno de Taiwan à China” é parte fundamental da ordem internacional. A declaração não trouxe novidades do ponto de vista da política chinesa, mas o fato de Pequim ter tomado a iniciativa da ligação revela o grau de atenção que a China dedica ao cenário atual.

Enquanto isso, o governo de Taiwan não ficou parado. Na quarta-feira (26), Taipei anunciou que prepara um aumento do seu Exército e dos gastos com Defesa. A ilha rejeita integralmente as reivindicações de Pequim e afirma que apenas o povo taiwanês pode decidir o futuro do território.

O que está em jogo na região

Essa crise não acontece no vácuo. Ela se soma a um quadro geopolítico já bastante tenso: a guerra na Ucrânia fortaleceu a parceria entre Rússia e China, os EUA reforçam alianças militares na Ásia e Taiwan investe em sua própria capacidade de defesa.

O que chama atenção, porém, é a velocidade com que a crise escalou — em menos de um mês, uma fala da premiê japonesa se transformou num conflito diplomático envolvendo quatro países com armas nucleares, além de Taiwan.

Para os países mais pobres e dependentes do comércio global, uma eventual escalada militar no Estreito de Taiwan seria catastrófica. Cerca de 40% do comércio mundial passa por rotas próximas à ilha. Qualquer interrupção afetaria cadeias de suprimento, preços de alimentos e commodities — e quem paga a conta, como sempre, são os mais vulneráveis.

A crise ainda está aberta. E os próximos movimentos de Tóquio, Pequim, Moscou e Washington vão definir se o mundo caminha para uma contenção diplomática ou para algo bem mais perigoso.

Com informações de g1 e RT*

Rhyan de Meira: Rhyan de Meira é jornalista pela Universidade Federal Fluminense, escreve sobre política, economia e carnaval. É repórter, redator e editor dos site O Cafezinho e Rio Carta. / Contato: Redes: @rhyandemeira / Email: rhyandemeira@hotmail.com
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