Geraldo Alckmin enquadrou a decisão dos Estados Unidos de classificar PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas como uma manobra política para desviar o foco do caso Master.
O vice-presidente afirmou nesta sexta-feira que a articulação bolsonarista em Washington busca criar um “factoide” para tirar a atenção do escândalo que envolve Daniel Vorcaro, o Banco Master e a pré-candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência.
“É um factóide do clã Bolsonaro para tentar desviar a atenção do caso Master”, disse Alckmin, segundo a Agência Brasil. A fala veio após o governo Donald Trump anunciar que pretende enquadrar as duas maiores facções criminosas brasileiras como organizações terroristas estrangeiras.
A declaração de Alckmin coloca o Palácio do Planalto em ofensiva política. Para o governo Lula, a medida norte-americana não pode ser lida apenas como cooperação internacional contra o crime organizado. Ela ocorre poucos dias depois de Flávio Bolsonaro se reunir com Trump, Marco Rubio e autoridades dos Estados Unidos, em uma agenda que o senador tentou vender como demonstração de força internacional.
O Departamento de Estado dos EUA anunciou que PCC e Comando Vermelho serão designados como “Organizações Terroristas Estrangeiras” e “Terroristas Globais Especialmente Designados” a partir de 5 de junho de 2026. O anúncio foi feito pelo secretário de Estado Marco Rubio e abre caminho para sanções financeiras e restrições contra redes associadas aos grupos.
O problema, para o governo brasileiro, está no uso político da medida. A decisão foi comemorada por Flávio Bolsonaro, que havia levado a pauta a Washington em meio ao desgaste provocado pelo caso Dark Horse, o filme sobre Jair Bolsonaro financiado, segundo reportagens, com recursos negociados junto a Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master.
A Associated Press registrou que a movimentação dos EUA foi vista pelo governo Lula como interferência externa, especialmente porque veio na sequência da viagem de Flávio a Washington. A agência também destacou que segurança pública deve ser tema central da eleição presidencial de 2026, o que dá ao gesto norte-americano peso eleitoral evidente.
A reação do Planalto tem dois eixos. O primeiro é político: expor a tentativa de Flávio de usar Trump para recuperar terreno depois das revelações sobre sua relação com Vorcaro. O segundo é institucional: defender que o combate ao crime organizado deve ser feito com cooperação internacional, mas sem abrir brecha para tutela estrangeira sobre temas internos do Brasil.
Esse é o ponto central da crítica de Alckmin. O governo não nega a gravidade do PCC e do Comando Vermelho. As duas facções têm atuação nacional e internacional, movimentam drogas, armas, dinheiro e redes logísticas complexas. Mas classificá-las como terrorismo por decisão unilateral de outro país cria riscos diplomáticos, jurídicos e políticos.
A Reuters informou que Celso Amorim, assessor especial da Presidência, defendeu cooperação internacional em temas como tráfico de armas, lavagem de dinheiro e crime transnacional, mas rejeitou qualquer medida que possa servir de pretexto para intervenção.
Lula também reagiu em tom duro. O presidente afirmou que o Brasil não aceitará ser tratado como “republiqueta” e classificou a movimentação como uma tentativa de interferência na soberania nacional. O Guardian registrou que Lula acusou a família Bolsonaro de agir contra os interesses do país ao buscar apoio externo para pressionar o governo brasileiro.
A fala de Alckmin reforça essa linha. Ao citar o caso Master, o vice-presidente conecta diretamente a ofensiva de Flávio nos EUA ao momento mais frágil de sua pré-campanha. O senador vinha perdendo terreno em pesquisas depois da revelação de áudios e mensagens sobre o financiamento do filme Dark Horse por Vorcaro.
A leitura do governo é que a pauta do terrorismo serve para deslocar o debate. Em vez de responder sobre dinheiro, banqueiro investigado, filme político e contradições públicas, Flávio tenta se apresentar como articulador internacional contra o crime organizado.
Mas a estratégia tem risco. Ao levar aos Estados Unidos uma pauta de segurança pública brasileira, o senador entrega a Lula um discurso poderoso: o de que o bolsonarismo busca apoio estrangeiro para interferir na política nacional.
A medida de Trump também reacende um debate sensível na América Latina. Nos últimos anos, Washington tem usado a classificação de organizações terroristas como ferramenta de pressão política, financeira e diplomática. Embora sanções contra facções possam atingir redes criminosas, especialistas alertam que esse tipo de enquadramento pode ampliar o raio de atuação dos EUA sobre países soberanos.
O Financial Times registrou que o governo brasileiro teme que a designação abra brecha para sanções e até para justificativas de ações mais agressivas sob o argumento de combate ao terrorismo.
É por isso que o governo Lula tenta separar duas coisas. Combater PCC e CV é obrigação do Estado brasileiro. Aceitar que outro país transforme facções brasileiras em peça de sua política externa é outra questão.
A fala de Alckmin busca justamente virar o jogo político. Em vez de deixar Flávio ocupar o discurso da segurança, o vice-presidente tenta mostrar que a ação nos EUA foi construída para produzir manchete, esconder o caso Master e criar constrangimento externo contra o Brasil.
O episódio mostra como a eleição de 2026 já entrou em uma fase internacionalizada. Trump tenta projetar influência sobre o debate brasileiro, Flávio tenta capitalizar essa aproximação e Lula responde com discurso de soberania.
No centro da disputa está uma pergunta simples: o Brasil vai combater o crime organizado com suas instituições ou aceitar que a Casa Branca use facções brasileiras como instrumento de pressão eleitoral?
Alckmin escolheu uma resposta direta. Para ele, a medida não é apenas sobre PCC e Comando Vermelho. É parte de um factoide bolsonarista para tirar o caso Master do centro do debate e salvar uma candidatura atingida antes mesmo da largada oficial.