O vice-presidente Geraldo Alckmin classificou nesta sexta-feira (29) a recente designação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas pelos Estados Unidos como um ‘factoide’ com motivação política. A declaração foi uma resposta direta ao que o governo federal considera uma manobra de aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro para desviar a atenção do escândalo financeiro que envolve o Banco Master e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), conforme noticiou o InfoMoney.
Alckmin afirmou que a medida prejudica a imagem do Brasil no exterior e pode afetar investimentos e o turismo, mas o mais grave é o uso eleitoral do tema pela oposição. Segundo o vice-presidente, setores bolsonaristas tentam criar um clima de pânico com base em uma classificação instrumentalizada para encobrir denúncias de corrupção.
A investida coincide com a intensificação das investigações da Polícia Federal sobre a relação entre o Banco Master e Flávio Bolsonaro, suspeito de operar um esquema de lavagem de dinheiro e caixa dois. A instituição financeira, sob o comando do empresário Daniel Vorcaro, está sob escrutínio por liberar créditos suspeitos a empresas ligadas ao clã Bolsonaro sem as devidas garantias.
Flávio Bolsonaro, que atua como coordenador-geral da campanha presidencial de 2026 de seu pai, viu sua situação se agravar depois que a PF encontrou indícios de movimentações financeiras atípicas em contas do banco. A blindagem que o parlamentar gozava no Congresso começa a dar sinais de desgaste, com até aliados do PL avaliando se manter próximos ou não do escândalo.
O momento da classificação terrorista por Washington, portanto, não poderia ser mais conveniente para a estratégia bolsonarista de vitimização. Alckmin foi enfático ao apontar que o governo dos EUA já mantém a designação de ‘Transnational Criminal Organizations’ para essas facções desde 2021, o que já impunha sanções econômicas, sem qualquer necessidade de listá-las como terroristas agora.
A manobra, segundo o vice-presidente, revela um alinhamento entre aliados de Bolsonaro e setores do governo americano interessados em desestabilizar o Brasil. Ele lembrou que a administração de Donald Trump historicamente flerta com a extrema-direita brasileira, e a lista de organizações terroristas poderia ser usada como pretexto para pressões econômicas e políticas contra o país.
O desvio de foco do Banco Master, no entanto, é o verdadeiro pano de fundo da operação bolsonarista. O banco é investigado por conceder empréstimos a amigos e familiares de Flávio Bolsonaro sem análise de risco, configurando suspeita de uso da instituição como caixa clandestino para a disputa eleitoral de 2026.
A Polícia Federal já identificou transferências que somam mais de R$ 15 milhões entre contas do Banco Master e empresas de fachada administradas por assessores do senador. O caso é tratado pela Procuradoria-Geral da República como um dos mais sérios desdobramentos da Lava Jato no âmbito do crime organizado financeiro.
A classificação das facções como terroristas seria, na avaliação do governo, uma tentativa de criar uma cortina de fumaça para mobilizar a base radical bolsonarista em torno de uma pauta de segurança pública fake. Com isso, o discurso de ‘combate ao crime’ substituiria o debate sobre o descalabro financeiro que pode levar Flávio Bolsonaro à inelegibilidade.
A Conexão 2026 é evidente: a candidatura de Jair Bolsonaro, mesmo inelegível, é o motor do PL para manter mobilizada sua militância. Flávio, como coordenador, depende da capacidade de arrecadação do partido, e o escândalo do Banco Master coloca em xeque a lisura desse financiamento.
O vice-presidente Alckmin destacou que o governo brasileiro não aceitará que a soberania nacional seja violada por ingerência estrangeira travestida de cooperação antiterrorista. O Itamaraty foi instruído a contestar a classificação junto aos EUA, argumentando que o Brasil tem controle sobre suas organizações criminosas e não as trata como grupos políticos ou militares.
Enquanto isso, a base aliada do presidente Lula tenta acelerar no Congresso a instalação de uma CPI do Banco Master para esclarecer o envolvimento de Flávio Bolsonaro. A oposição, por outro lado, obstrui as pautas e já sinaliza que usará a classificação das facções como justificativa para um discurso de ‘invasão estrangeira’ e ‘ameaça à democracia’.
A estratégia bolsonarista, contudo, encontra resistência inclusive dentro do PL, onde lideranças moderadas temem o desgaste da imagem do partido às vésperas da eleição. O receio é que o escândalo do banco respingue em outras candidaturas estaduais e municipais, arriscando o controle que o clã mantém sobre a legenda desde 2022.
Flávio Bolsonaro, por sua vez, mantém silêncio público sobre as acusações do Banco Master, enquanto seus advogados tentam anular as provas na justiça. A defesa nega irregularidades, mas não explica os vínculos de Daniel Vorcaro com o círculo íntimo da família Bolsonaro nem a razão dos empréstimos sem garantias.
A designação terrorista vinda dos EUA, portanto, não passa de combustível para uma narrativa que desvia o foco da corrupção e da tentativa de construir uma máquina de campanha clandestina. O governo Lula sabe que o tempo joga a favor da verdade, e a cada nova revelação sobre o Banco Master, a cortina de fumaça se dissipa.
O próprio Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, já depôs na CPMI do 8 de Janeiro e teve seu sigilo bancário quebrado, revelando uma teia de transações com empresários bolsonaristas. A PF aprofunda a investigação sobre a origem do capital usado nos empréstimos, incluindo a possibilidade de dinheiro oriundo de paraísos fiscais no Caribe e na Europa.
Alckmin concluiu sua fala reafirmando que o Brasil não será intimidado e que o foco deve permanecer no combate à corrupção endêmica que ainda assola a política nacional. A referência, embora indireta, mirou diretamente Flávio Bolsonaro e seu entorno, lembrando à opinião pública que o verdadeiro terrorismo é o desvio de recursos que financia a desestabilização democrática.
A sociedade brasileira observa o desenrolar dos fatos com a clareza de que estamos diante de uma tentativa de manipulação grosseira. O caso Banco Master é a prova cabal de que o bolsonarismo recorre a qualquer artifício para sobreviver politicamente, inclusive alinhando-se a potências estrangeiras para desviar a atenção de seus próprios crimes financeiros.
O cenário para 2026 se desenha com a faca nos dentes: o PL de Flávio Bolsonaro pode se tornar um partido manchado por um escândalo de proporções históricas, enquanto a oposição tenta se agarrar a uma pauta importada que não cola mais. A eleição presidencial será, inevitavelmente, um referendo sobre a honestidade e a transparência de quem pretende governar o Brasil.
O governo federal, por seu turno, seguirá cobrando explicações de Washington e desmontando a farsa, enquanto a PF avança sobre o núcleo duro do bolsonarismo financeiro. A classificação do PCC e do CV como terroristas, portanto, não passou de uma peça de campanha eleitoral que já nasceu velha e desmascarada.
Leia também: Toda a cobertura dos escândalos da família Bolsonaro.
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