Dark horse: Bolsonaro receberia 1 dólar por biografia enquanto Vorcaro irrigava produção com R$ 61 milhões

A farsa está documentada: Jair Bolsonaro aceitou vender sua história de vida por 1 dólar, enquanto o banqueiro Daniel Vorcaro despejava R$ 61 milhões no mesmo projeto. A minuta de contrato obtida pela Agência Pública expõe a arquitetura financeira de ‘Dark Horse’, uma operação que usava o ex-presidente como isca para um esquema de lavagem de dinheiro muito maior.

O documento de 15 páginas, redigido em português e inglês, revela os termos da barganha: Bolsonaro cederia de forma ‘incondicional, irrevogável, exclusiva e perpétua’ os direitos sobre sua imagem, voz e biografia. Em troca, receberia o simbólico pagamento de 1 dólar no ato da assinatura, condicionando qualquer bônus à realização efetiva do filme.

Se a produção saísse do papel, o ex-capitão ganharia mais US$ 25 mil no início das filmagens e outros US$ 25 mil caso fosse lançado nos cinemas. A hipótese mais otimista – uma bilheteria superior a US$ 20 milhões – lhe renderia mais US$ 50 mil, totalizando cerca de R$ 500 mil, valor irrisório diante da dimensão do negócio.

Enquanto isso, o fundo Havengate Development Fund LP, com sede no Texas e abastecido pelo Banco Master, aportava R$ 61 milhões, conforme revelado pelo The Intercept Brasil. O contrato determinava que qualquer disputa judicial seria resolvida nos tribunais da Califórnia, blindando os produtores e deixando Bolsonaro sem qualquer poder de manobra.

A cláusula mais abusiva autorizava Mário Frias e Karina Ferreira da Gama, sócios da Go Up Entertainment, a ficcionalizar a trajetória do ex-presidente, alterar personagens e até omitir seu nome. A proibição de Bolsonaro conceder outras entrevistas sobre a própria vida completava a armadilha jurídica, transformando-o em peça descartável do próprio filme.

O contraste entre o 1 dólar pago a Bolsonaro e os R$ 61 milhões injetados por Vorcaro desmonta a narrativa de produção independente. A Polícia Federal investiga se parte desses recursos bancou a estada de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos, suspeita que o ex-deputado nega chamando de ‘tosca’ – adjetivo que não explica os rastros financeiros.

Novos documentos revelados pela Agência Pública mostram que Eduardo Bolsonaro e a Go Up procuraram uma empresa húngara para estruturar pagamentos por meio de ‘escrow account’ (conta de custódia). A manobra, com possível repasse de US$ 57,5 mil ao diretor Cyrus Nowrasteh, indica esforço deliberado para ocultar a origem e o destino dos recursos.

O escândalo Vorcaro, que já atinge o senador Flávio Bolsonaro e as entranhas do Banco Master, ganha mais um capítulo revelador. ‘Dark Horse’ funcionava como fachada para circular dinheiro vivo num balcão de negócios que misturava cinema, política e operações financeiras opacas, tudo sob as bênçãos do clã bolsonarista.

Os direitos adquiridos sobre a história de Bolsonaro permitiam explorar parques temáticos, trilhas sonoras, merchandising e qualquer mídia futura, num contrato que os produtores definiram como ‘incondicional, irrevogável, exclusivo e perpétuo’. O documento explicitava que o cedente não se reservava nenhum direito, uma renúncia absoluta que surpreende até veteranos do mercado audiovisual.

A cláusula que proibia Bolsonaro de contestar o acordo na Justiça e limitava seu único recurso a uma ação por danos, com arbitragem obrigatória na Califórnia, elimina a ideia de um negócio entre partes iguais. Na prática, o ex-presidente entregou sua biografia a operadores que, segundo as investigações, usaram o projeto como fachada para movimentar dinheiro de origem suspeita.

O orçamento estimado para ‘Dark Horse’ superava R$ 120 milhões, cifra maior que a produção de ‘O Agente Secreto’, indicado ao Oscar e rodado com R$ 28 milhões. A desproporção entre o custo declarado e o valor real do filme reforça a tese de que o longa-metragem era apenas a ponta visível de uma engenharia financeira muito mais lucrativa.

O ‘bônus de produção’ de US$ 25 mil e os pagamentos condicionados a bilheteria ou lançamento configuram uma cenoura inalcançável, pois o filme jamais foi finalizado. Enquanto Vorcaro já havia colocado dezenas de milhões, Bolsonaro continuava preso a promessas contratuais que nunca se converteriam em dinheiro vivo para ele.

A investigação sobre o uso dos recursos para custear Eduardo Bolsonaro nos EUA é a ponta do iceberg de um esquema que misturava financiamento de filme, caixa paralelo e blindagem jurídica internacional. Cada novo documento confirma que o bolsonarismo tratou a própria história como ativo de liquidação, vendida por 1 dólar enquanto o dinheiro de verdade irrigava os operadores do sistema.

O mito que se vendia como símbolo de independência assinou o papel sem ler as entrelinhas: sua imagem valia menos que um café em Nova York, porque os verdadeiros lucros já estavam direcionados a outro lugar. ‘Dark Horse’ é o retrato acabado de um projeto de poder que tratou seu líder máximo como peça descartável, enquanto os operadores financeiros do bolsonarismo faziam a limpa.

Com informações de Agência Pública.


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