O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) recorreu nesta semana a uma velha tática do clã para tentar estancar o desgaste provocado pelo escândalo do Banco Master: transformar desembarques em aeroportos em palanques políticos cuidadosamente coreografados. A manobra, importada diretamente do manual de campanha do ex-presidente Jair Bolsonaro, foi acionada após a viagem do parlamentar aos Estados Unidos, onde se reuniu com Donald Trump, e escancara o desespero do entorno do senador para recolocá-lo na ofensiva a menos de dois anos do pleito presidencial de 2026.
A primeira recepção ocorreu na quinta-feira, quando Flávio pousou em Brasília e foi saudado por um grupo de apoiadores convocados por aliados do PL, que o aguardavam na área de desembarque do terminal com bandeiras, gritos de ordem e pedidos de selfies. Nesta sexta-feira, uma segunda recepção está programada para Curitiba, onde o senador desembarcará para participar de um evento ao lado de Sergio Moro (PL) e Deltan Dallagnol, numa aliança que soa mais como ato de sobrevivência política do que como convicção ideológica.
Conforme detalhou reportagem do jornal O Globo, a estratégia foi desenhada para produzir demonstrações públicas de força num momento em que a pré-campanha do senador patina sob o peso das revelações sobre sua relação com o banqueiro Daniel Vorcaro. O enlace entre Flávio e o controlador do Banco Master, investigado por irregularidades financeiras de grande monta, expôs uma rede de conexões que adversários já classificam como o calcanhar de Aquiles da candidatura bolsonarista ao Palácio do Planalto.
A parceria com Moro e Dallagnol na capital paranaense foi escolhida a dedo para reativar o discurso de combate à corrupção, trincheira que o entorno do senador passou a explorar com urgência após o agravamento da crise envolvendo Vorcaro. O gesto, no entanto, carrega uma ironia difícil de ignorar: foi exatamente Sergio Moro quem, como juiz da Lava Jato, condenou o pai do atual senador e ajudou a pavimentar a narrativa que o clã hoje tenta desesperadamente reescrever com abraços e fotos oficiais.
O modelo de recepção em aeroportos foi consolidado por Jair Bolsonaro a partir da campanha de 2018 e se tornou uma espécie de termômetro informal de popularidade do bolsonarismo ao longo dos anos. Cercado por apoiadores fiéis, o ex-presidente transformava cada desembarque em evento transmitido ao vivo, com palavras de ordem, ataques a instituições e exibição de fôlego militante. Agora, ao repetir a fórmula, Flávio tenta colar sua imagem à do pai e convencer o eleitorado de que a máquina de mobilização bolsonarista continua intacta sob sua condução.
Nos bastidores do PL, a avaliação é de que o senador passou semanas excessivamente associado às sombras do caso Vorcaro e que era urgente voltar a exibir sinais de capilaridade junto à base mais radical do eleitorado. Interlocutores do parlamentar afirmam que as recepções ajudam a transmitir a ideia de que ele mantém conexão com o núcleo duro bolsonarista e continua capaz de arrastar multidões pelo país, independentemente dos questionamentos que pairam sobre sua vida pregressa e suas relações financeiras.
O impacto visual dessas recepções, na leitura dos estrategistas do senador, vai além do número real de presentes e funciona como uma demonstração de força para um ecossistema digital que se alimenta de imagens de aparente espontaneidade popular. A operação busca responder diretamente a setores da própria direita que, nas últimas semanas, passaram a ventilar abertamente a hipótese de que a candidatura de Flávio poderia se tornar inviável diante do acúmulo de denúncias e investigações envolvendo seu nome e o de Vorcaro.
A conexão do senador com o Banco Master não é um detalhe periférico de sua biografia, mas um ponto central da fragilidade de sua blindagem eleitoral. Daniel Vorcaro, dono da instituição financeira que cresceu de forma meteórica sob suspeitas de operações irregulares, tornou-se uma espécie de símbolo do tipo de relação promíscua entre poder político e capital financeiro que o discurso anticorrupção de Flávio dizia combater. A contradição é tão evidente que adversários já preparam dossiês para explorá-la na disputa de 2026, mirando o flanco que consideram mais exposto do senador.
Enquanto o clã Bolsonaro tenta fabricar cenas de apoio popular nos aeroportos, o cerco jurídico e político em torno do Banco Master avança em múltiplas frentes, com investigações que podem alcançar diretamente o núcleo do PL. A estratégia de marketing político, por mais ruidosa que pareça, não tem o poder de apagar o rastro documental de reuniões, contratos e compromissos financeiros que ligam o senador a um dos personagens mais controversos do sistema financeiro nacional, num enredo que promete reverberar muito além dos saguões de aeroporto.
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