Uma descoberta arqueológica revelou que cirurgiões da China do século XV utilizavam anestésico local potente extraído de planta venenosa com técnicas avançadas de segurança. A análise de resíduos em instrumentos cirúrgicos de ferro encontrados no túmulo de um médico da dinastia Ming foi publicada na revista Antiquity.
Os utensílios, uma tesoura e uma pinça, foram localizados em 1974 na província de Jiangsu, no leste da China, na sepultura de Xia Quan, clínico nascido em 1348. Exames de microespectroscopia Raman realizados por pesquisadores da Universidade do Noroeste da China identificaram traços de aconitina nas superfícies oxidadas.
O composto, extraído de plantas do gênero Aconitum, é extremamente venenoso. O arqueólogo Congcang Zhao, coautor do estudo, destacou a importância da identificação química em objetos tão antigos. Segundo ele, seis séculos atrás um cirurgião operou com essas ferramentas, e agora os resquícios do anestésico foram lidos com tecnologia a laser.
Para utilizar a aconitina sem causar mortes, os médicos da dinastia Ming desenvolveram métodos precisos de desintoxicação. A planta era imersa em urina de menino, sopa de soja preta ou vinagre, gerando um pó anestésico chamado Caowu San. O composto dessensibilizava a área a ser operada, permitindo cirurgias indolores.
Carney Matheson, cientista forense da Universidade Griffith, na Austrália, ressaltou que isolar o composto e manipular sua toxicidade exigia conhecimento científico extraordinário. Era necessário extrair a substância sem se envenenar, processá-la para uso seguro e garantir seu efeito anestésico.
Na Europa medieval, a anestesia era brutal. Cirurgiões amarrava pacientes despertos à mesa de operação ou usavam sedativos como ópio e cicuta. A Europa só conheceu anestésico local eficaz no século XIX, com a cocaína extraída da folha de coca, já utilizada há milênios por povos indígenas da América do Sul.
A documentação sobre cirurgias chinesas dessa época é escassa. Os instrumentos de Xia Quan, hoje guardados no Museu de Jiangyin, preenchem uma lacuna na história da medicina. Os autores do estudo destacam que a prática de cirurgias seguras e anestesiadas na China Ming demonstra capacidade de equilibrar potência farmacológica e segurança do paciente.
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