Nas águas gélidas do Atlântico Norte, uma criatura modesta acaba de implodir uma das certezas mais fundamentais da biologia moderna. Fragmentos amputados do pepino-do-mar Psolus fabricii não apenas se recusam a morrer — eles prosperam, se curam e absorvem nutrientes, desafiando a própria definição do que significa estar vivo.
A descoberta veio à tona quando pesquisadores perceberam que pedaços de tecido deixados para trás no aquário simplesmente não entravam em decomposição. Em vez disso, os fragmentos continuavam visivelmente ativos, exibindo movimento e capacidade de resposta a estímulos meses após a separação do organismo original.
A estudante de doutorado em ciências oceânicas da Memorial University em Newfoundland e Labrador, no Canadá, Sara Jobson, liderou a investigação que acaba de ser publicada na revista Science Advances. Jobson descreveu o fenômeno como o primeiro caso documentado de imortalidade tecidual em condições naturais, segundo apontou o portal da CNN ao repercutir o estudo.
‘Chamamos carinhosamente esses explantes de tecido de nossos zumbis, porque eles parecem cavalgar a linha tênue entre o morto e o vivo’, afirmou Jobson. A pesquisadora explicou que as criaturas são conhecidas por sua altíssima capacidade regenerativa, mas ninguém jamais havia investigado o destino dos pedaços que se desprendem.
O comportamento desafia qualquer analogia com outros animais famosos pela regeneração, como as lagartixas que sacrificam a cauda para escapar de predadores. A diferença radical é que a cauda da lagartixa não faz nada depois de perdida — já os fragmentos do pepino-do-mar se comportam como entidades autônomas capazes de se manter vivas indefinidamente.
‘Até onde pudemos observar, não houve sinais de morte, degradação ou necrose’, acrescentou Jobson, referindo-se à morte celular programada. Os tecidos amputados permaneceram saudáveis por mais de três anos, e os cientistas só interromperam a observação porque precisavam publicar os resultados.
A diretora do Whitney Laboratory for Marine Bioscience da Universidade da Flórida, Veronica Hinman, que não participou do estudo, comentou por email a profundidade da descoberta. ‘Esta pesquisa testa suposições fundamentais sobre o que significa estar vivo e como a vida depende do organismo inteiro, e não apenas das propriedades auto-organizadoras locais dos tecidos’, escreveu Hinman.
O achado que desencadeou o estudo foi puramente acidental, conforme relatou Jobson. Os pesquisadores mantêm animais vivos em tanques no laboratório costeiro, e ao remover um pepino-do-mar que estava firmemente grudado no vidro, vários de seus pés tubulares ficaram para trás — algo normal, já que a espécie pode se desprender voluntariamente sob ataque de predadores.
‘Percebemos que eles ainda estavam lá depois de dias, depois semanas, depois meses, ainda grudados’, contou a cientista. Os fragmentos não apenas permaneciam no lugar como também cicatrizavam, cresciam ligeiramente e mantinham-se vivos em seu ambiente natural.
Um detalhe crucial é que tudo ocorreu fora de qualquer ambiente estéril, em água do mar não tratada e repleta de microrganismos. Os tecidos absorveram aminoácidos presentes naturalmente no habitat, dispensando completamente a necessidade de boca ou sistema digestivo para se nutrir.
Os cientistas observaram produção celular contínua, sinais de um sistema imunológico ativo e resposta a toques mecânicos mesmo muito tempo após a amputação. Caso a imortalidade desses tecidos venha a ser confirmada, eles poderiam um dia substituir ou suplementar as famosas células HeLa — linhagem humana imortalizada obtida em 1951 de Henrietta Lacks, paciente com câncer cervical, sem consentimento da doadora.
As células HeLa, embora revolucionárias para a pesquisa biomédica, exigem condições altamente controladas e estéreis para se multiplicar, além de carregarem o peso ético de sua obtenção involuntária. As células do pepino-do-mar não impõem as mesmas restrições éticas e sobrevivem em ambientes muito mais hostis, o que representaria uma vantagem prática formidável.
O pesquisador de pós-doutorado na Universidade de Southampton, na Inglaterra, Noé Wambreuse, especialista em equinodermos que não integrou o estudo, classificou o fenômeno como ‘inteiramente novo’. ‘Embora a regeneração em si não seja novidade nesses animais, o que este estudo demonstra — algo que poderia ser descrito como imortalidade tecidual — é completamente inédito’, escreveu Wambruise em email.
Para Hinman, o que torna o achado tão perturbador é que biólogos costumam pensar nos tecidos como partes dependentes de um organismo maior. ‘Um fígado sobrevive porque o corpo mantém fluxo sanguíneo, proteção imunológica, nutrientes, moléculas sinalizadoras, remoção de resíduos e organização estrutural’, exemplificou a cientista, notando que uma vez removido do corpo, o tecido normalmente se deteriora com rapidez.
Os próximos passos da pesquisa envolvem examinar a estrutura do DNA das células para verificar se elas estão envelhecendo após se replicarem. ‘Isso confirmaria se são ou não verdadeiramente imortais’, disse Jobson, enquanto a comunidade científica observa com uma mistura de fascínio e perplexidade.
Os tecidos-zumbis do Psolus fabricii não se transformam em novos organismos completos, como ocorre em algumas espécies de pepino-do-mar capazes de reprodução assexuada por fissão. Eles parecem ter encontrado um estado de existência que embaralha as categorias convencionais — nem parte de um todo, nem indivíduo reprodutivo, mas algo radicalmente intermediário.
A busca pelos mecanismos químicos que permitem essa autossuficiência extrema pode abrir portas impensáveis para a pesquisa médica e para a biologia do envelhecimento. No fundo gélido do oceano, um animal discreto e sem rosto guarda segredos que a ciência apenas começa a vislumbrar, reescrevendo as fronteiras entre o efêmero e o eterno.
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