Fenômeno cósmico espreme atmosfera de Marte como pasta de dente e intriga cientistas da NASA

Satélite orbita Marte em ilustração da missão espacial. (Foto: livescience.com)

Um fenômeno que se julgava impossível em Marte está comprimindo a atmosfera do Planeta Vermelho como pasta de dente saindo de um tubo, revelou uma análise inédita de dados da sonda MAVEN, da NASA, durante uma tempestade solar extrema. O efeito, batizado de Zwan-Wolf, foi identificado pela primeira vez na Terra em 1976 e agora emerge nos confins do espaço marciano, desafiando décadas de consenso científico.

O mecanismo ocorre quando partículas carregadas são espremidas ao longo de estruturas magnéticas chamadas tubos de fluxo, um comportamento que, até então, só se acreditava viável em planetas com magnetosfera ativa gerada por núcleo metálico fundido. Como Marte possui um núcleo solidificado há bilhões de anos e não gera um campo magnético global, os especialistas sempre descartaram que tal efeito pudesse ali se manifestar.

Conforme detalhou o site Live Science, o achado foi registrado após uma poderosa ejeção de massa coronal do Sol atingir Marte em dezembro de 2023, embaralhando temporariamente os vestígios de sua alta atmosfera. A sonda Mars Atmosphere and Volatile Evolution (MAVEN), que orbita o planeta desde 2014, captou perturbações que só poderiam ser explicadas pelo até então improvável efeito Zwan-Wolf.

O cientista planetário da Universidade de West Virginia, Christopher Fowler, autor principal do estudo, confessou seu espanto diante dos dados. ‘Ao investigar os registros, de repente notei umas ondulações muito interessantes; eu jamais teria imaginado que fosse esse efeito’, revelou Fowler, destacando que ninguém esperava que tal fenômeno pudesse sequer ocorrer na atmosfera de um planeta.

Diferentemente da Terra, onde o efeito Zwan-Wolf se manifesta a dezenas de milhares de quilômetros da superfície, a versão marciana foi detectada na ionosfera, a cerca de 200 quilômetros de altitude, região repleta de plasma. A descoberta sugere que campos magnéticos localizados, gerados na fronteira entre o vento solar e o plasma ionosférico, são capazes de acionar o espremedor cósmico mesmo sem um dínamo planetário central.

Os pesquisadores acreditam que o fenômeno, longe de ser um evento raro, provavelmente ocorre de forma contínua em Marte, mas só se tornou visível pela amplificação provocada pela radiação extrema da tempestade solar. Essa constatação abre um novo capítulo na compreensão de como o clima espacial interage com atmosferas desprotegidas, com implicações diretas para futuras missões tripuladas ao planeta.

A pesquisa, publicada na revista Nature Communications, alerta que alterações na ionosfera podem impactar naves em órbita, equipamentos de comunicação e até os níveis de radiação que atingem a superfície marciana. Shannon Curry, pesquisadora do Laboratório de Física Espacial Atmosférica da Universidade do Colorado em Boulder e investigadora principal da MAVEN, enfatizou que entender os vínculos entre o Sol e o Planeta Vermelho é absolutamente essencial para a segurança das próximas jornadas.

Além de reescrever o manual da física atmosférica marciana, a equipe levanta a hipótese de que o efeito Zwan-Wolf possa ser detectado em outros mundos do Sistema Solar, como Vênus e a lua Titã, de Saturno. A confirmação de que atmosferas planetárias podem ser espremidas como um tubo de pasta de dente cósmica não apenas excita a imaginação, mas também redefine os limites do que a ciência considerava possível.


📨 Inscreva-se na Newsletter de O Cafezinho

Receba nossas análises e as principais notícias diárias do Brasil e do Sul Global.

Redação:
Related Post

Privacidade e cookies: Este site utiliza cookies. Ao continuar a usar este site, você concorda com seu uso.