A Polícia Federal enviou à Procuradoria-Geral da República um parecer favorável à abertura de investigação contra o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), no caso que envolve o repasse de R$ 61 milhões do ex-banqueiro Daniel Vorcaro para os Estados Unidos. O dinheiro foi destinado oficialmente à produção do filme ‘Dark Horse’, sobre a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro, mas os investigadores suspeitam que os valores tenham servido a outros propósitos.
Conforme apurou o Brasil 247, a manifestação da PF ocorreu após pedidos de investigação apresentados por políticos e advogados, motivados por reportagem do site Intercept Brasil. A corporação considera haver elementos suficientes para justificar o aprofundamento das apurações sobre os personagens envolvidos.
Um dos pontos que chamou a atenção dos investigadores foi o alto valor enviado ao exterior, apesar de parte significativa das gravações terem sido realizadas no Brasil. A PF também considera que a forma da remessa e seus objetivos precisam ser esclarecidos, podendo configurar evasão de divisas se for instaurado inquérito formal.
A linha de apuração mais grave envolve o possível financiamento da permanência do ex-deputado Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos. Eduardo é réu no STF por coação no curso do processo, acusado de atuar para que o governo americano aplicasse sanções e medidas contra autoridades brasileiras, mirando pressionar o Judiciário a não condenar Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado.
A suspeita inicial é que parte dos R$ 61 milhões de Vorcaro tenha custeado a estada do ex-deputado no exterior, enquanto ele operava politicamente contra o Brasil. Caso comprovada, a triangulação financeira poderia enquadrar os envolvidos por colaboração com o crime de coação, além de evasão de divisas.
O ex-presidente Jair Bolsonaro já foi condenado e cumpre pena em regime fechado, mas sua base política ainda tenta articular sua candidatura para 2026 ou a de um herdeiro político. O cerco judicial ao clã, no entanto, pode inviabilizar qualquer pretensão eleitoral e isolar o núcleo bolsonarista.
Paralelamente, o ministro Alexandre de Moraes, do STF, deu prazo de cinco dias para a PGR se manifestar sobre um pedido para incluir Flávio e Jair Bolsonaro no inquérito que apura a atuação de Eduardo nos Estados Unidos. O pedido foi apresentado pelo deputado federal Lindbergh Farias (PT-RJ) após as revelações do Intercept Brasil.
O senador Flávio Bolsonaro, por ter foro privilegiado, só pode ser investigado com autorização do STF, cabendo à PGR decidir se pedirá a abertura da investigação. A expectativa é que o caso fique sob relatoria do ministro André Mendonça, que já conduz ações relacionadas ao Banco Master e a Daniel Vorcaro.
O ministro Mendonça relata outras ações que envolvem a instituição financeira, a qual enfrenta questionamentos do Banco Central sobre sua solidez e possíveis ligações com esquemas de repasses irregulares. A concentração de casos em um mesmo gabinete pode acelerar as investigações e aumentar o risco de novas medidas cautelares contra os investigados.
Flávio Bolsonaro já figurou em investigações anteriores, como o caso das rachadinhas na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, que o tornou réu antes de ser absolvido por questões processuais. A reincidência em suspeitas de irregularidades financeiras levanta dúvidas sobre sua capacidade de continuar a vida pública sem novas máculas.
O Banco Master, por sua vez, tornou-se um personagem central no noticiário político desde que se descobriram suas conexões com doleiros e a remessa de dinheiro para o exterior. A instituição agora responde a procedimentos administrativos e judiciais que podem levar a sanções severas, inclusive sua liquidação.
A atuação de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos coincidiu com os repasses de Vorcaro, e ele manteve encontros com parlamentares americanos e figuras da extrema-direita local. A investigação mira se os recursos bancaram essa espécie de ‘exílio dourado’ com fins de desestabilizar o governo brasileiro.
A defesa dos envolvidos nega irregularidades, afirmando que os valores se destinaram exclusivamente à produção audiovisual. Contudo, a discrepância entre o local das filmagens e o destino do dinheiro é um ponto que a Polícia Federal considera central para o esclarecimento dos fatos.
Com a aproximação das eleições de 2026, cada investigação que atinge o núcleo bolsonarista se torna um ativo político para a oposição e um passivo para o PL. A sombra de Vorcaro e do Banco Master sobre o senador Flávio Bolsonaro é um capítulo que promete render novos desdobramentos à medida que a corrida eleitoral se aquece.
A dificuldade do bolsonarismo em encontrar um nome viável para 2026 esbarra justamente na fragilidade jurídica de seus principais líderes. Flávio, cotado como possível candidato a governador ou vice-presidente, vê seu capital político se deteriorar à medida que os inquéritos avançam.
O partido Liberal vive um dilema: não pode abandonar a família Bolsonaro sob risco de perder a base mais radical, mas tampouco consegue se desvencilhar do passivo judicial que arrasta o clã para o centro do noticiário criminal. Analistas políticos apontam que a estratégia de vitimização pode não ser suficiente para sustentar uma campanha presidencial em 2026, diante de provas robustas e da atuação contundente do STF.
O movimento da PF representa mais um capítulo na escalada de investigações que atingem o clã Bolsonaro, especialmente no que diz respeito ao uso de recursos do sistema financeiro para fins políticos. A blindagem eleitoral se enfraquece a cada novo fato investigado, e a possibilidade de evasão de divisas é um veneno eleitoral em tempos de crise econômica.
O filme ‘Dark Horse’, que serviria como propaganda do mito bolsonarista, transformou-se em um pesadelo financeiro e jurídico. O que era para glorificar a trajetória de Jair Bolsonaro agora expõe as entranhas de uma suposta engenharia de recursos obscuros.
A Procuradoria-Geral da República ainda não se manifestou, mas o procurador-geral Paulo Gonet deve avaliar o parecer da PF nos próximos dias. Se a investigação avançar, Flávio Bolsonaro pode se tornar réu em mais uma frente judicial, somando-se às outras ações que tramitam contra a família.
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