Submersível chinês revela ‘jardim’ exuberante nas profundezas abissais a mais de 9 km

Submersível chinês 'Fendouzhe' é lançado em águas oceânicas, próximo ao local de descoberta de ecossistema abissal. (Foto: www.scmp.com)

Nas profundezas mais remotas dos oceanos, onde a pressão esmagadora e a escuridão absoluta pareciam vetar qualquer forma de vida complexa, um ecossistema ‘jardim’ acaba de emergir diante dos olhos da ciência. Uma equipe internacional liderada por pesquisadores chineses descobriu uma comunidade exuberante de organismos vivendo em rochas a mais de 9 quilômetros de profundidade, nas chamadas fossas hadais.

Até agora, os cientistas acreditavam que apenas anêmonas solitárias, esponjas ou bactérias extremófilas poderiam suportar condições tão hostis, com temperaturas próximas do congelamento e uma coluna d’água capaz de esmagar um submarino. A nova descoberta, no entanto, revela um quadro muito mais vibrante e diverso, desafiando as premissas da biologia marinha profunda.

O professor Peng Xiaotong, do Instituto de Ciência e Engenharia do Mar Profundo da Academia Chinesa de Ciências, liderou a investigação que foi publicada na prestigiosa revista Science em 14 de maio de 2023. Peng e seus colegas empregaram o submersível tripulado chinês Fendouzhe, conhecido como Striver, para vasculhar sete fossas e bacias na região do Indo-Pacífico entre 2020 e 2024.

A cada mergulho, o Fendouzhe desvendava um universo onde a vida não apenas sobrevive, mas floresce, alimentando-se de detritos orgânicos que caem lentamente da superfície iluminada pelo sol. Nas rochas abissais, os organismos formam verdadeiros tapetes ‘ajardinados’, ricos em anêmonas, esponjas e outras criaturas ainda não catalogadas, que se agarram à matéria orgânica marinha como único sustento.

A relevância do achado ecoa para além da biologia: ele expande os horizontes da habitabilidade planetária e serve de análogo para a busca de vida em oceanos extraterrestres, como os de luas geladas de Júpiter e Saturno. A resiliência encontrada nas fossas hadais reescreve os manuais sobre os limites da existência e aponta para uma teia trófica engenhosa e muito mais resiliente do que se imaginava.

Os detalhes completos da expedição e das análises genéticas preliminares foram repercutidos em uma reportagem do South China Morning Post, que destaca o papel central do Fendouzhe na conquista desse novo conhecimento. A reportagem enfatiza ainda que o achado inaugura uma nova era para a exploração das regiões mais inacessíveis do planeta, tradicionalmente deixadas à margem das grandes expedições oceanográficas.

Para os investigadores chineses, o sucesso do Fendouzhe consolida a posição do país na vanguarda da exploração submarina profunda, um campo que mescla engenharia de ponta, diplomacia científica e questionamentos fundamentais sobre a origem e a persistência da vida. O ecossistema ‘jardim’, agora sob os holofotes da comunidade científica, ainda guarda inúmeras perguntas sobre sua dinâmica e capacidade de adaptação às mudanças climáticas.

Enquanto os pesquisadores planejam novas missões para mapear geneticamente esse oásis abissal, uma certeza já se impõe: as fossas oceânicas, embora representem apenas uma fração do leito oceânico, estão longe de ser desertos estéreis. A natureza, mais uma vez, demonstra sua incrível capacidade de adaptar-se a ambientes extremos.


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