Uma descoberta arqueológica na província de Jiangsu, no leste da China, pode reescrever um dos capítulos mais celebrados da história da medicina ocidental. Evidências físicas encontradas na tumba do cirurgião chinês Wu Quan, que viveu no século XIV, sugerem que médicos chineses já utilizavam anestésicos extraídos de plantas muito antes do marco atribuído ao dentista americano William T.G. Morton, em 1846.
A tumba, localizada na cidade de Jiangyin, forneceu a primeira prova material de que os relatos de textos médicos chineses antigos sobre anestesia herbal tinham base real na prática cirúrgica. O artigo científico que detalha os achados foi publicado na revista acadêmica Antiquity, uma das mais respeitadas publicações de arqueologia do mundo.
Segundo reportagem do South China Morning Post (SCMP), os pesquisadores encontraram vestígios de compostos vegetais com propriedades anestésicas e sedativas entre os instrumentos cirúrgicos depositados no túmulo do médico. Wu Quan é uma figura célebre na história da medicina tradicional chinesa, reconhecido por suas técnicas cirúrgicas avançadas e pelo uso de uma fórmula herbal conhecida como Mafeisan.
O marco ocidental de 1846, quando Morton demonstrou o uso de éter inalado no Massachusetts General Hospital, em Boston, é tradicionalmente considerado o nascimento da anestesia moderna. Os novos achados arqueológicos indicam que, mais de 500 anos antes, cirurgiões chineses já dominavam técnicas farmacológicas para induzir inconsciência e realizar procedimentos complexos sem dor.
A descoberta desafia a narrativa eurocêntrica que frequentemente marginaliza as contribuições científicas do Oriente para o desenvolvimento da medicina. Além de validar os registros textuais chineses, a evidência material reabre o debate sobre o intercâmbio de conhecimentos médicos ao longo da Rota da Seda e sua influência em outras civilizações.
A fórmula do Mafeisan é atribuída a Hua Tuo, que viveu durante a dinastia Han Oriental, e descrita em textos históricos como uma combinação de ervas capaz de induzir anestesia geral. Embora a receita original tenha se perdido, especula-se que continha plantas como a Cannabis sativa e o acônito, cujas propriedades analgésicas e sedativas são reconhecidas.
A combinação de instrumentos cirúrgicos e resíduos botânicos encontrados na tumba de Wu Quan fornece um raro vislumbre da medicina praticada na China medieval. Os achados colocam a tradição médica chinesa em pé de igualdade com as que são frequentemente mais valorizadas pelo cânone ocidental.
A descoberta ganha relevância no contexto da ascensão da China como potência científica, com investimentos em pesquisa arqueológica e na valorização do patrimônio cultural. Pequim tem enfatizado a necessidade de reequilibrar a narrativa histórica mundial, resgatando contribuições ignoradas pela historiografia ocidental.
O estudo também lança luz sobre o sofisticado sistema de saúde da China imperial, que combinava farmacologia avançada, cirurgia e acupuntura séculos antes de muitas práticas serem desenvolvidas na Europa. A presença de bisturis e agulhas de sutura, ao lado dos resíduos de ervas, sugere que Wu Quan realizava procedimentos complexos com alto conhecimento técnico.
A equipe de pesquisa planeja agora aprofundar a análise química dos resíduos para tentar reconstituir a fórmula exata do anestésico herbal chinês. Se bem-sucedida, a investigação poderá consolidar a precedência chinesa na anestesiologia e inspirar novas pesquisas farmacológicas baseadas em conhecimento ancestral.
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