A análise que redefine o debate sobre a rivalidade entre Estados Unidos e China vem de Arnaud Bertrand (@RnaudBertrand), analista e empreendedor francês conhecido por suas observações incisivas sobre a geopolítica global. Em um post publicado em sua conta no X, Bertrand desmonta o conceito da chamada “armadilha de Tucídides”, mostrando que ele não é levado a sério nem pelos chineses, nem pelos ocidentais , e provavelmente nem mesmo por Graham Allison, o acadêmico que o popularizou.
Segundo Bertrand, o próprio Tucídides, em seu relato original sobre a Guerra do Peloponeso, já contradizia a interpretação moderna do termo. Na narrativa clássica, Esparta , a potência estabelecida que, segundo a “armadilha”, deveria ser a agressiva , foi, na verdade, a parte relutante. O rei espartano argumentou contra a guerra, as provocações vieram da ascendente Atenas, e Esparta foi arrastada para o conflito contra sua vontade.
O analista lembra que o presidente chinês, Xi Jinping, rejeitou publicamente o conceito em um discurso em Seattle, em 2015, classificando-o como “boato, viés paranóico ou autoimposto”. Na ocasião, Xi afirmou: “Devemos julgar estritamente com base nos fatos, para não nos tornarmos vítimas de boatos, viés paranóico ou autoimposto. Não existe a chamada armadilha de Tucídides no mundo. Mas se grandes países repetirem erros de cálculo estratégico, podem criar tais armadilhas para si mesmos.”
O que mudou, argumenta Bertrand, é que o conceito se revelou politicamente conveniente para todos os lados. Para os EUA, serve para justificar sua incapacidade de conter a ascensão chinesa: ao invés de admitir fracasso, Washington pode dizer que precisa ser “estratégico” para não cair na armadilha e evitar uma Terceira Guerra Mundial. Para a China, a narrativa é igualmente útil: a ascensão chinesa não é a ameaça , o medo ocidental é que, ao resistir, caminha-se deliberadamente para o conflito que Tucídides teria previsto.
Países intermediários, como o Canadá, encontram no conceito uma justificativa para sua própria sobrevivência geopolítica. Bertrand observa que, para “potências médias” , a grama que seria pisoteada quando elefantes lutam , , a autopreservação pode ser enquadrada como uma causa nobre: o dever especial de ajudar as grandes potências a evitar a armadilha.
O resultado, segundo o analista, é uma ironia fina. Xi inicialmente rejeitou o conceito exatamente por acreditar que ele poderia se tornar uma profecia autorrealizável , alimentando a própria guerra que prevê. Hoje, no entanto, a armadilha de Tucídides é usada por todos, inclusive pela China, como um motivo honroso para evitar o confronto direto. Para Bertrand, esse paradoxo é, no fim das contas, um bom sinal: independentemente de o conceito ser historicamente válido ou não, na prática ele torna a paz mais provável.
I actually suspect that no-one seriously believes in the existence of the “Thucydides trap”: not the Chinese, not the West, and probably not even Graham Allison, the author of the concept (he’s too smart for this).
Heck, even Thucydides himself, in the original text, doesn’t… https://t.co/5v0GmMdOjl
— Arnaud Bertrand (@RnaudBertrand) May 31, 2026