Campanha de Flávio Bolsonaro recicla marqueteiro de desastre eleitoral de 2018

Ilustração editorial sobre Campanha de Flávio Bolsonaro recicla marqueteiro de desastre eleitoral de 2018. (Ilustração: Cafezinho / Wan 2.6)

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) recrutou para sua campanha um marqueteiro cujo último trabalho presidencial terminou em menos de 1% dos votos e um rastro de acusações de amadorismo. O publicitário Eduardo Fischer desembarca no núcleo eleitoral do filho mais velho do ex-presidente Jair Bolsonaro em meio à crise provocada pelo afastamento de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, que até recentemente ocupava posição de destaque na estrutura de comunicação da pré-candidatura.

A escolha de Fischer como ‘consultor estratégico da comunicação’ expõe a dificuldade do clã Bolsonaro em atrair profissionais de primeira linha para a disputa de 2026. O publicitário carrega a marca de ter comandado uma das campanhas mais caóticas e ineficazes da eleição de 2018, quando foi contratado como estrategista da candidatura de Alvaro Dias (Podemos) à Presidência da República.

Naquela ocasião, Fischer prometeu revolucionar a comunicação do então senador paranaense com uma equipe robusta e uma estratégia digital agressiva. O marqueteiro montou um estúdio de campanha com equipamentos de ponta, contratou dezenas de profissionais e assumiu o controle criativo de toda a produção de conteúdo. A realidade, porém, foi um desastre retumbante: Alvaro Dias terminou a disputa com menos de 0,8% dos votos válidos, atrás de candidatos nanicos e sem expressão nacional.

O fracasso foi acompanhado por denúncias de desorganização, atrasos em entregas e brigas internas entre integrantes da campanha. Relatos da época, conforme revelou o Diário do Centro do Mundo, apontam que Fischer gastou recursos significativos sem conseguir traduzir o investimento em engajamento ou crescimento nas pesquisas. O publicitário deixou a campanha antes mesmo do fim do primeiro turno, em meio a acusações de que a estratégia digital era ‘um deserto de ideias’.

Agora, o mesmo profissional assume a missão de projetar Flávio Bolsonaro como nome competitivo para a reeleição ao Senado, enquanto o clã tenta pavimentar o caminho para Jair Bolsonaro em 2026. A contratação ocorre após Daniel Vorcaro ser afastado da campanha em meio a investigações que apuram irregularidades financeiras envolvendo o Banco Master, instituição que operou como peça-chave na engenharia de recursos do bolsonarismo nos últimos anos. Vorcaro chegou a ser apontado como elo entre o senador e operações de captação de recursos junto a empresários do setor financeiro.

Uma fonte próxima à campanha, que falou sob condição de anonimato, classificou a chegada de Fischer como ‘um movimento de desespero diante da escassez de opções’. A avaliação interna é de que a rejeição ao sobrenome Bolsonaro afastou marqueteiros estabelecidos, que temem ver suas reputações associadas a uma campanha com risco elevado de derrota. Fischer, por sua vez, chega com a promessa de ‘profissionalizar a comunicação’, embora os precedentes de 2018 sugiram o oposto.

A campanha de Flávio Bolsonaro enfrenta desafios que vão além da escolha de pessoal. O senador carrega o peso de investigações sobre rachadinhas, as ligações com o Banco Master e a imagem de herdeiro político de um ex-presidente condenado pelo Tribunal Superior Eleitoral. A tentativa de reeleição é vista como um teste de sobrevivência do bolsonarismo no Rio de Janeiro, estado onde o clã construiu sua base, mas que hoje registra índices de rejeição superiores a 60% em algumas pesquisas internas.

No universo da comunicação política, o currículo de Fischer é tratado com ceticismo por profissionais que acompanharam sua trajetória. Em 2018, sua passagem pela campanha de Alvaro Dias gerou um legado de processos trabalhistas movidos por ex-funcionários que alegaram falta de pagamento e condições precárias de trabalho. O publicitário nega as acusações, mas o episódio reforça o perfil de um operador que entrega resultados inversamente proporcionais às promessas que faz.

A conexão com 2026 é direta e preocupante para o bolsonarismo. A reeleição de Flávio Bolsonaro ao Senado é tratada como peça central na estratégia de reabilitação política do ex-presidente, que aposta no filho para manter o controle sobre o PL no Rio de Janeiro e garantir palanque para uma eventual candidatura presidencial. Com Fischer no comando da comunicação, a campanha do senador ganha um arquiteto cuja única experiência nacional resultou em uma das votações mais humilhantes da história recente.

O isolamento político do clã fica evidente quando se observa que a contratação de Fischer ocorre após a saída de Vorcaro sem que houvesse disputa pelo cargo. Nenhum grande nome do marketing político brasileiro demonstrou interesse em assumir a vaga, o que indica que a comunidade de marqueteiros avalia a candidatura de Flávio como uma aposta de alto risco com baixa probabilidade de sucesso. O próprio Fischer aceitou a missão em um contexto de escassez absoluta de alternativas para seu próprio currículo.

O Banco Master, que antes irrigava a estrutura bolsonarista com recursos e conexões, tornou-se um passivo após as investigações. A saída de Vorcaro da campanha foi um golpe significativo para a logística financeira do senador, que agora tenta recompor sua equipe com profissionais de segundo escalão enquanto o cerco judicial se fecha sobre o ecossistema de financiamento que sustentou o clã nos últimos anos. Fischer herda uma campanha financeiramente combalida e politicamente sitiada.

A aposta em um marqueteiro cujo maior feito foi transformar um senador experiente em um candidato de 0,8% dos votos revela mais fragilidade do que estratégia. A campanha de Flávio Bolsonaro caminha para 2026 com a blindagem eleitoral corroída por escândalos, a máquina financeira sob investigação e agora um estrategista de comunicação cujo histórico recomenda exatamente o oposto da confiança que se espera depositar em um consultor. O passado de Fischer sugere que o caos de 2018 pode estar prestes a ganhar uma sequência em 2026.

Leia também: Toda a cobertura dos escândalos da família Bolsonaro.


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