A geopolítica costuma ser cruel com aqueles que confundem submissão voluntária com prestígio diplomático. O senador Flávio Bolsonaro viajou recentemente aos Estados Unidos em busca de uma foto rápida na Casa Branca e de um verniz de relevância internacional para sua pré-campanha presidencial. O triunfo anunciado pelo clã bolsonarista foi o lobby pessoal junto a Donald Trump para que o Departamento de Estado americano classificasse as facções criminosas brasileiras como organizações terroristas globais. O que era para ser apresentado como uma vitória de segurança pública revelou-se, contudo, a antessala de um desastre econômico e de uma profunda traição nacional.
Apenas dias após receber a comitiva brasileira com sorrisos ensaiados e tapinhas nas costas, a administração de Donald Trump aplicou um golpe severo na economia do Brasil. O Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) propôs a aplicação de uma tarifa massiva de 25% sobre uma extensa lista de produtos brasileiros, sob a justificativa de responder a supostas práticas comerciais brasileiras que seriam “irrazoáveis” e prejudiciais aos interesses norte-americanos.
O alvo central dessa agressão econômica não poderia ser mais emblemático da soberania nacional: o sistema de pagamentos Pix.
A criminalização da eficiência soberana
O relatório que fundamenta a ofensiva tarifária de Trump cita e ataca o Pix em diversas passagens. Para Washington, a ferramenta de inclusão financeira que revolucionou o cotidiano de mais de 160 milhões de brasileiros, eliminando taxas bancárias extorsivas e democratizando o comércio, é classificada como uma “barreira discriminatória”. Os Estados Unidos acusam o Pix de receber tratamento preferencial por parte do governo brasileiro em detrimento das operadoras de pagamentos americanas — gigantes do oligopólio de cartões que viram suas margens de lucro minguarem diante da extraordinária eficiência da tecnologia pública nacional.
Ao tentar estrangular a economia brasileira com tarifas de 25%, Trump não está apenas defendendo os lucros de suas corporações financeiras; ele está declarando guerra aberta a um dos maiores símbolos de inovação soberana do Sul Global. O Pix, orgulho do desenvolvimento tecnológico brasileiro, passa a ser tratado pelo império como um crime de concorrência contra o monopólio do dólar e de suas bandeiras de pagamento.
O efeito bumerangue da vassalagem
A coincidência temporal entre o lobby entreguista de Flávio Bolsonaro e o anúncio das sanções tarifárias de Trump desenha uma parábola perfeita sobre o complexo de vira-lata. Flávio viajou a Washington para pedir que os EUA aplicassem rótulos de terrorismo internacional sobre o território brasileiro. Trata-se de uma medida que, sob o pretexto de combater o crime, abre as portas para o chamado overcompliance financeiro: o pânico de bancos e fundos estrangeiros em investir no Brasil com medo de sanções secundárias americanas. O senador agiu ativamente para fragilizar a reputação e o ambiente de negócios do próprio país que pretende governar.
A resposta que recebeu de seu “aliado” ideológico na Casa Branca foi a punhalada tarifária de 25%, atingindo as exportações do país, encarecendo a produção interna e tentando criminalizar a maior conquista recente de cidadania financeira do povo brasileiro. Trump demonstrou, na prática, como enxerga o bolsonarismo: não como um parceiro estratégico, mas como um vassalo útil cuja submissão é tão cega que aceita bofetadas comerciais sem esboçar reação.
Uma bomba na campanha do clã
Este episódio implode a principal narrativa de política externa e segurança do clã Bolsonaro. A imagem que fica gravada na retina do eleitorado é a de uma traição dupla: o senador que vai a Washington se ajoelhar diante de uma potência estrangeira, enquanto essa mesma potência desfere um ataque contra a soberania do Pix e contra o bolso do trabalhador brasileiro.
A tentativa de Flávio Bolsonaro de importar fórmulas de segurança de Washington terminou por importar a recessão tarifária. O eleitor brasileiro agora compreende, com absoluta clareza, a fatura cobrada pelo alinhamento automático: o Brasil entrega sua soberania securitária, oferece de joelhos seus recursos e, em troca, recebe o estrangulamento de suas exportações e o ataque criminoso à sua tecnologia financeira mais eficiente.
O Pix resistirá à ganância de Washington. Resta saber se a campanha do entreguismo bolsonarista resistirá à dura constatação de que, na geopolítica imperial de Donald Trump, os aliados de ontem são os taxados de hoje.