Cientistas europeus reprogramaram geneticamente bactérias para produzir plásticos, cosméticos e medicamentos a partir de metanol sustentável, eliminando a necessidade de petróleo e gás natural. O projeto, batizado de CarboNcare e liderado pela Charité – Universitätsmedizin Berlin, promete viabilizar uma economia circular do carbono sem emissões adicionais.
A chave do processo está na conversão de metanol, que já pode ser obtido pela captura de CO2 da atmosfera, em intermediários químicos como lactato, succinato e butanodiol. Esses compostos são a base de revestimentos de comprimidos, conservantes alimentícios, bioplásticos, batons e até borracha para pneus.
As bactérias Escherichia coli e Pseudomonas putida, velhas conhecidas da indústria, estão sendo modificadas para se alimentarem do metanol e excretar as moléculas desejadas. Funcionam como minúsculas fábricas biológicas, controladas por engenharia genética de precisão.
O grande desafio, segundo o cientista do Instituto de Bioquímica da Charité e coordenador do projeto, Dr. Steffen Lindner-Mehlich, é redirecionar a energia que os microrganismos naturalmente usariam para crescer. Para isso, a equipe vinculou o crescimento bacteriano diretamente à produção das substâncias-alvo, aumentando o rendimento e tornando o processo mais previsível.
Antes de levar as modificações ao laboratório, os pesquisadores simularão as rotas metabólicas em computador, otimizando cada etapa virtualmente. A abordagem reduz custos e acelera a criação de cepas industriais eficientes.
Segundo matéria publicada pelo Phys.org, o consórcio reúne oito parceiros europeus da ciência e da indústria, unindo biologia molecular, engenharia de fermentação e análise econômica. O processo fermentativo está sendo planejado desde já para operar em escala industrial, com avaliação rigorosa de sua pegada ambiental e viabilidade financeira.
O apelo comercial é imenso: apenas o mercado global de lactato movimentou cerca de 2,9 bilhões de euros em 2021 e segue em expansão. Substituir matérias-primas fósseis por metanol renovável, sem competir com a produção de alimentos, responde a duas crises urgentes do planeta.
A iniciativa evita o uso de açúcares ou biomassa que exigem terras agricultáveis, preservando a segurança alimentar. No cenário ideal, um plástico produzido a partir de CO2 capturado do ar seria incinerado ao fim da vida útil, e o carbono liberado voltaria a ser capturado para nova fabricação, fechando o ciclo.
Lindner-Mehlich ressalta que o objetivo é criar uma alternativa seriamente viável e sustentável aos métodos petroquímicos estabelecidos. Se bem-sucedida, a tecnologia poderá estender a produção climaticamente neutra a inúmeros itens do cotidiano.
Com informações de https://phys.org/.