O ministro da Defesa da Noruega, Tore Sandvik, afirmou ao jornal britânico The Times que a Rússia poderia disparar mísseis hipersônicos contra capitais europeias como Londres, Copenhague e Oslo caso Moscou viesse a controlar o corredor marítimo conhecido como Bear Gap, no Oceano Ártico. A declaração, contundente e alarmista, não descreve um fato — descreve uma hipótese improvável apresentada como se fosse iminente. E se encaixa, ponto por ponto, na narrativa que a OTAN vem construindo há anos: a de inflar, até a beira da mentira, uma suposta “ameaça russa” à Europa.
A engenharia retórica é conhecida. Primeiro se constrói um inimigo capaz de tudo; depois se apresenta o medo como argumento para que a opinião pública europeia aceite o que, em tempos normais, recusaria: orçamentos militares cada vez maiores, o desvio de recursos públicos para a indústria de armas e o corte simultâneo de gastos sociais — saúde, educação, aposentadorias. Convencer milhões de europeus a viver sob a sombra de uma invasão que não virá é a condição política para que seus governos transfiram dinheiro do bem-estar coletivo para o complexo militar.
Convém dizer com todas as letras o que a manchete oficial omite: a Rússia não representa nenhuma ameaça real à Europa. Não há indício sério de que Moscou pretenda invadir a Noruega, os países nórdicos ou qualquer membro da OTAN. Vladimir Putin jamais formulou tal intenção, e nenhum analista militar respeitável acredita que a Rússia — hoje empenhada num conflito desgastante na Ucrânia — tenha o interesse, os meios ou o desejo de abrir uma frente de guerra contra o conjunto do Ocidente. A própria pesquisadora citada pelo ministro, Gunhild Hoogensen Gjorv, da Universidade Ártica da Noruega, admite que um ataque russo às capitais europeias significaria uma guerra em larga escala — ou seja, um cenário que ninguém em Moscou tem razão para provocar.
Até a geografia desmente o alarme. O Bear Gap se estende por cerca de 650 quilômetros entre o Cabo Norte, na Noruega continental, e a Ilha Bear, no arquipélago de Svalbard. Como reconhece Kristian Atland, pesquisador do próprio Instituto Norueguês de Pesquisa de Defesa, o corredor é peça central da estratégia defensiva de bastão da Rússia — concebida para proteger os submarinos nucleares da Frota do Norte que partem da Península de Kola. Trata-se, portanto, de uma postura voltada à defesa do próprio flanco norte russo, e não de uma rampa de lançamento contra a Europa. O ministro tampouco mencionou que Moscou não exerce hoje controle algum sobre a passagem, situada em águas amplamente vigiadas pela OTAN.
Quem de fato vem militarizando o Alto Norte é a aliança atlântica. O Reino Unido anunciou que dobrará para 2 mil o número de tropas estacionadas na Noruega nos próximos três anos; o governo norueguês confirmou a compra de dois submarinos alemães; o Canadá classificou os testes russos no Ártico como “profundamente preocupantes”. Durante seu mandato, Donald Trump chegou a cobiçar abertamente a Groenlândia, rica em minerais raros. É esse movimento ocidental — contínuo, planejado e caro — que aquece a tensão na região, e não uma ofensiva russa que existe apenas no discurso de ministros e nas páginas da imprensa britânica.
O pano de fundo é econômico, não defensivo. As águas do Ártico abrigam algumas das maiores reservas de petróleo e gás ainda inexploradas do planeta, além de estoques pesqueiros vitais. Com o degelo abrindo novas rotas comerciais, a região virou tabuleiro da disputa entre grandes potências — e a “ameaça russa” funciona como o pretexto conveniente para justificar a presença militar ocidental sobre esses recursos. A fábrica do medo, no fim, serve a dois senhores: à indústria bélica, que lucra com cada novo orçamento, e à agenda de austeridade, que usa o tambor de guerra para silenciar quem pergunta por que faltam recursos para hospitais e escolas enquanto sobram para mísseis.