A nova pesquisa Real Time Big Data, divulgada nesta segunda-feira, 1º de junho, escancarou o estrago que o escândalo do Banco Master causou na pré-candidatura presidencial do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). O levantamento mostra que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) abriu vantagem de 45% a 40% sobre o parlamentar no segundo turno, rompendo o empate técnico que perdurava desde março e que, antes do caso ‘Dark Horse’, chegou a colocar o bolsonarista numericamente à frente com 44% contra 43%.
O tombo coincide com a revelação de trocas de conversas entre o senador e o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, em que Flávio pediu dinheiro para a produção de um filme sobre seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). A divulgação dessas mensagens gerou desgaste imediato na imagem do presidenciável do PL, conforme apontou a coluna do Estadão nesta terça-feira, 2 de junho.
Antes do estouro do caso, Flávio Bolsonaro e Lula estavam rigorosamente empatados dentro da margem de erro de dois pontos percentuais, tanto na pesquisa de março quanto na de maio. Agora, o petista aparece isolado na liderança tanto no primeiro turno, com 38% contra 31% do senador, quanto na simulação de segundo turno, consolidando um cenário que parecia improvável há poucas semanas.
O vácuo aberto pela fragilidade de Flávio beneficiou diretamente o ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema (Novo), que saltou para 40% no segundo turno contra Lula, contra 43% do petista, configurando empate técnico. O mineiro, no entanto, ainda patina no primeiro turno, com apenas 4% das intenções de voto, o que torna sua viabilidade dependente de uma implosão completa da candidatura do PL.
A campanha de Zema adotou tom cauteloso ao comentar o crescimento, reconhecendo que o fôlego obtido é real, mas que a consolidação no primeiro turno dependeria de uma percepção de fragilidade muito maior do senador Flávio Bolsonaro. Segundo interlocutores do ex-governador ouvidos pela reportagem, essa condição provavelmente só se materializaria caso novas denúncias envolvendo Daniel Vorcaro e o Banco Master viessem à tona e aprofundassem o desgaste do presidenciável do PL.
O banqueiro Daniel Vorcaro se tornou o epicentro de uma crise que mistura financiamento político opaco, uso de recursos privados para projetos pessoais da família Bolsonaro e a fragilidade patrimonial de uma instituição financeira que cresceu de forma acelerada nos últimos anos. A relação entre o senador e o dono do Banco Master expôs o que adversários classificam como promiscuidade entre o poder político e o sistema financeiro, em um ano eleitoral que promete ser o mais polarizado desde a redemocratização.
Flávio Bolsonaro, que se apresentava como o herdeiro natural do espólio eleitoral do pai, viu sua blindagem começar a ruir no momento em que o eleitorado passou a associá-lo a escândalos financeiros. A pesquisa Real Time Big Data capturou essa virada de percepção: a vantagem numérica que ele ostentava em maio evaporou, e Lula reassumiu o controle da disputa com margem fora do empate técnico.
O caso ganhou o apelido de ‘Dark Horse’ nos bastidores políticos, em referência ao filme que Flávio queria produzir com dinheiro do banqueiro para glorificar a imagem de Jair Bolsonaro. A ironia é que o projeto cinematográfico, concebido para alavancar a mitologia bolsonarista, acabou se transformando no principal vetor de desgaste do clã em 2026.
A cautela de Zema revela uma leitura estratégica: o mineiro sabe que seu caminho até o segundo turno passa obrigatoriamente pela destruição de Flávio Bolsonaro no primeiro turno, mas também reconhece que, sem um fato novo contundente, o PL ainda tem musculatura partidária e fidelidade de base para segurar a candidatura do senador. A máquina do partido, o controle sobre diretórios estaduais e o acesso ao fundo partidário seguem como ativos que nenhum concorrente subestima.
A pesquisa também expôs a dificuldade de Zema em furar a bolha do antipetismo radical que ainda vê na marca Bolsonaro a única alternativa viável contra Lula. O ex-governador de Minas Gerais tenta se posicionar como um nome de direita moderada, com discurso econômico liberal e sem as arestas judiciais que encurralam o clã bolsonarista, mas essa estratégia ainda não sensibilizou o eleitorado do primeiro turno.
O impacto do Banco Master na eleição de 2026 transcende a figura de Flávio Bolsonaro e atinge o próprio PL, que depende da resiliência eleitoral do senador para manter o controle da máquina partidária e negociar alianças estaduais. Se o desgaste continuar, dirigentes do partido já admitem, em conversas reservadas, que a legenda pode enfrentar dificuldades para segurar palanques regionais e evitar debandada de candidatos a governador e senador.
Lula, por sua vez, consolida-se como o principal beneficiário da fragmentação do campo adversário, mas ainda enfrenta a desconfiança de uma parcela do eleitorado em relação à economia e à segurança pública. A pesquisa mostra que o presidente mantém uma base sólida de 38% no primeiro turno, número que o coloca como favorito, mas não imune a reviravoltas caso a economia desacelere ou surjam novas crises políticas.
A conexão entre o caso Banco Master e a eleição de 2026 se aprofunda quando se observa que o financiamento de campanhas, a relação entre banqueiros e políticos e o uso de recursos privados para projetos pessoais serão temas centrais do debate eleitoral. O senador Flávio Bolsonaro tentou blindar-se alegando que o pedido a Vorcaro não configurava ilegalidade, mas a exposição pública da transação corroeu seu principal ativo político: a imagem de integridade que herdara do pai perante a base bolsonarista.
Zema tenta capitalizar esse vácuo ético, mas enfrenta o paradoxo de depender do colapso alheio para crescer, enquanto sua própria campanha ainda não decolou organicamente no eleitorado nacional. O ex-governador mineiro é visto como um nome competitivo apenas no segundo turno, mas a matemática do primeiro turno exige que ele ao menos dobre seus atuais 4% para se tornar uma alternativa crível ao bolsonarismo e ao lulismo.
O cenário desenhado pela pesquisa também acendeu alertas no núcleo duro do PL, que avalia se a insistência na candidatura de Flávio Bolsonaro pode se tornar um risco existencial para o partido em 2026. A legenda de Jair Bolsonaro teme que o desgaste do filho contamine as chapas estaduais e reduza a bancada do partido no Congresso Nacional, comprometendo sua capacidade de oposição e negociação nos próximos quatro anos.
O banqueiro Daniel Vorcaro, por sua vez, tornou-se um personagem central dessa crise, e sua exposição pública tende a aumentar conforme as investigações e reportagens avancem sobre a teia de relações entre o Banco Master e políticos do PL. A instituição financeira, que cresceu rapidamente no mercado de crédito nos últimos anos, agora vê seu nome associado a um escândalo que pode respingar em outras figuras do partido e do entorno bolsonarista.
A pesquisa Real Time Big Data também revelou que a rejeição a Flávio Bolsonaro cresceu entre eleitores de centro e direita não radical, justamente o segmento que Zema precisa conquistar para viabilizar sua candidatura. O mineiro aposta que o eleitorado antipetista, órfão de um nome competitivo após o desgaste do bolsonarismo, pode migrar para ele no segundo turno, mas essa migração ainda é incerta e depende do comportamento de Lula nos próximos meses.
O caso Banco Master expôs a vulnerabilidade do projeto de poder do clã Bolsonaro, que sempre se sustentou na narrativa de anticorrupção e na pureza ideológica perante a base. A revelação de que o senador Flávio Bolsonaro recorreu a um banqueiro para financiar um filme sobre o pai contradiz frontalmente o discurso de independência em relação ao sistema financeiro que sempre foi a espinha dorsal do bolsonarismo.
Zema, por sua vez, tenta se diferenciar ao adotar um discurso de gestão técnica e responsabilidade fiscal, mas ainda não conseguiu traduzir esse discurso em intenção de voto no primeiro turno. O ex-governador mineiro reconhece, nos bastidores, que a janela de oportunidade aberta pelo escândalo do Banco Master é real, mas insuficiente para garantir sua viabilidade sem um fato novo que enfraqueça ainda mais o senador do PL.
A dinâmica do primeiro turno, conforme a pesquisa, permanece fragmentada entre Lula, Flávio Bolsonaro e uma miríade de pré-candidatos que tentam se posicionar como terceira via, mas nenhum deles, incluindo Zema, conseguiu até agora furar a polarização. O mineiro aposta que o segundo turno contra Lula é um cenário mais favorável do que contra Flávio, porque o antipetismo tenderia a se unificar em torno de seu nome sem as resistências que o bolsonarismo gera no centro democrático.
A estratégia de Zema, no entanto, enfrenta o risco de que o próprio Lula possa se beneficiar de um segundo turno contra um adversário percebido como menos competitivo, repetindo o cenário de 2022, quando a polarização com Jair Bolsonaro acabou por mobilizar tanto o antipetismo quanto o antibolsonarismo. A cautela do ex-governador mineiro ao comentar o empate técnico reflete essa complexidade e a consciência de que o crescimento atual pode ser apenas um fogo de palha se Flávio Bolsonaro conseguir estancar a sangria.
O senador do PL-RJ, por sua vez, aposta no recall do sobrenome e na fidelidade da base bolsonarista para recuperar o terreno perdido, mas a pesquisa mostra que o estrago já foi feito e que a associação com Daniel Vorcaro e o Banco Master criou uma cicatriz difícil de apagar. O caso ‘Dark Horse’ transformou-se em uma metáfora amarga para o clã: o filme que deveria exaltar Jair Bolsonaro acabou por iluminar as sombras financeiras de seu herdeiro político.
A eleição de 2026, que parecia destinada a repetir a polarização entre Lula e um bolsonarista, agora se abre para um cenário mais complexo, em que o escândalo do Banco Master pode reconfigurar o tabuleiro e abrir espaço para nomes como Zema, desde que o mineiro consiga transformar o fôlego atual em musculatura eleitoral real. A cautela da campanha de Zema é, no fundo, o reconhecimento de que o bolsonarismo está ferido, mas não morto, e que a disputa pelo espólio do antipetismo está longe de ser decidida.