A tarifa de carbono sobre importações instituída pela União Europeia, cuja fase de cobrança efetiva começou este ano, está gerando um efeito global, incentivando parceiros comerciais a adotarem suas próprias políticas climáticas. O estudo indica que isso pode aumentar em 73% a redução mundial de emissões de dióxido de carbono.
O Mecanismo de Ajuste de Fronteira de Carbono (CBAM) impõe uma taxa sobre a importação de aço, ferro, alumínio, cimento, fertilizantes, eletricidade e hidrogênio, exceto quando o país exportador já tributa internamente as emissões. Conforme reportagem do phys.org, um novo estudo do Instituto Potsdam para Pesquisa de Impacto Climático (PIK) demonstra que o mecanismo pode formar uma coalizão climática internacional, ampliando significativamente o alcance da ação ambiental.
A pesquisa, publicada no Journal of the Association of Environmental and Resource Economists (JAERE), combinou modelos de comércio e teoria dos jogos para simular as decisões de 43 países em 56 setores econômicos. Sem o ajuste de fronteira, a redução doméstica de 505 milhões de toneladas de CO2 por ano na UE seria parcialmente compensada pelo vazamento de carbono, resultando em um corte líquido global de apenas 305 milhões de toneladas.
Com o CBAM, esse vazamento cai de 40% para 15%, elevando a mitigação global para 399 milhões de toneladas. O efeito mais relevante, porém, surge quando os parceiros respondem com seus próprios preços de carbono: nesse cenário, a redução planetária salta para 691 milhões de toneladas, um incremento de 73% em comparação com a política europeia isolada.
O autor principal do estudo, Timothé Beaufils, pesquisador do PIK, explica que o CBAM foi concebido para descarbonizar a indústria europeia sem perda de competitividade, mas suas consequências externas são igualmente relevantes. Já observamos países como Brasil e Turquia respondendo ao CBAM com suas próprias precificações de carbono, afirma Beaufils, destacando o potencial de difusão de políticas verdes.
De acordo com as simulações, Canadá, Japão, Coreia do Sul e Taiwan são os candidatos mais prováveis a aderir à coalizão climática para escapar da tarifa europeia. Ampliações do mecanismo para outros setores poderiam tornar atraente a participação até mesmo dos Estados Unidos, enquanto a China só entraria se o preço da tonelada de carbono ficasse abaixo de 20 dólares.
A coautora Leonie Wenz, também do PIK, resume que o estudo quantifica o chamado efeito Bruxelas, pelo qual a posição central da UE nas cadeias globais de suprimentos faz com que regras adotadas em Bruxelas transbordem para além das fronteiras. Ela ressalta que uma ação climática mais ambiciosa realimenta a própria ambição, fator crucial quando as negociações internacionais sobre mitigação enfrentam dificuldades.
Os resultados mostram que mecanismos de ajuste de fronteira podem funcionar como catalisadores de cooperação climática, transformando o risco de fuga de carbono em estímulo para que mais nações taxem emissões. A pesquisa está disponível na íntegra no periódico JAERE sob o código DOI 10.1086/742163.
Com informações de https://phys.org/.