Uma equipe de cientistas do Japão desafiou uma das intuições mais básicas da física, revelando que moléculas mais longas atravessam poros flexíveis em nanoescala com maior velocidade. O estudo, publicado na revista Chem, foi liderado pelo professor Shuichi Hiraoka, da Universidade de Tóquio, e pelo professor Masanori Tachikawa, da Universidade Municipal de Yokohama.
A pesquisa utilizou nanocubos moleculares auto-organizados em água para analisar quantitativamente como diferentes moléculas passam por essas estruturas dinâmicas. Os pesquisadores prepararam três tipos de nanocubos com graus variados de flexibilidade, examinando sistematicamente a influência da dinâmica dos poros no transporte molecular.
Os cientistas observaram um fenômeno surpreendente: os alcanos lineares, moléculas em forma de cadeia, entraram nos nanocubos muito mais rápido do que os alcanos ramificados com o mesmo número de carbonos. Este resultado contraria a lógica macroscópica, em que objetos mais compridos costumam enfrentar mais dificuldade para atravessar aberturas estreitas.
No mundo nanométrico, os poros não são rígidos. Eles flutuam, vibram e mudam de forma constantemente devido à agitação térmica, como ocorre nos canais iônicos das membranas celulares. Segundo reportagem do portal Phys.org, a equipe propôs um mecanismo de transporte em duas etapas para explicar a descoberta. As moléculas primeiro formam um complexo de encontro transitório na superfície externa do nanocubo e, em seguida, aguardam o momento em que o poro flexível se abre temporariamente para entrar.
Moléculas com maior afinidade pela superfície externa permanecem mais tempo nessa região de espera, o que aumenta a probabilidade de entrada quando o portão molecular se dilata. As simulações de dinâmica molecular realizadas pelo grupo permitiram visualizar diretamente os eventos de abertura dos poros e a passagem das moléculas, reforçando o mecanismo proposto.
Outro dado relevante veio da comparação entre diferentes terminações químicas. A introdução de ligações duplas ou triplas nas extremidades das moléculas acelerou o transporte, enquanto a presença de átomos de oxigênio o retardou consideravelmente. Os resultados estabelecem um novo princípio cinético para o transporte molecular através de comportas dinâmicas em nanoescala.
A compreensão de como a flexibilidade dos poros e as interações superficiais determinam a velocidade de passagem abre caminho para o design de canais artificiais seletivos e materiais de separação inspirados em processos biológicos. O estudo, intitulado ‘Kinetic gating of linear hydrocarbons by a dynamic synthetic pore’, foi publicado com o DOI 10.1016/j.chempr.2026.103065. A pesquisa representa um avanço significativo na compreensão dos mecanismos fundamentais que regem o transporte em sistemas biológicos e sintéticos.
Diferentemente dos filtros artificiais rígidos, os poros biológicos estão em constante movimento. Entender essa dinâmica molecular pode revolucionar áreas como a administração de fármacos e a purificação de água. A descoberta insere o Japão na vanguarda da nanotecnologia aplicada a processos de reconhecimento molecular.