Dono do Banco Master detalha esquema dark horse de Flávio Bolsonaro em programa da Fórum

Ilustração editorial sobre Dono do Banco Master detalha esquema dark horse de Flávio Bolsonaro em programa da Fórum. (Ilustração: Cafezinho / Wan 2.6)

O dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, participou nesta quarta-feira do programa da Revista Fórum e revelou detalhes operacionais do chamado esquema Dark Horse, atribuído diretamente ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). A delação espontânea, feita em rede nacional diante de um painel de especialistas, expôs a arquitetura financeira que, segundo Vorcaro, serviu para blindar ativos e movimentar recursos de forma oculta durante o mandato do parlamentar.

O programa contou com a presença da cientista política Mayra Goulart, do professor de Ciência Política João Feres e da jurista Soraia Mendes, que analisaram as implicações jurídicas e eleitorais das declarações do banqueiro. A apresentação foi conduzida por Miguel do Rosário e Glauco Faria, que conduziram a entrevista com perguntas diretas sobre o funcionamento do esquema e sua conexão com o clã Bolsonaro.

Segundo apurou o programa da Revista Fórum, o termo Dark Horse — cavalo escuro, em tradução livre — designava uma estrutura paralela de investimentos e participações societárias que não apareciam nas declarações oficiais de Flávio Bolsonaro. Vorcaro teria confirmado que o banco atuou como veículo para operações de crédito e investimento que beneficiavam indiretamente o senador, utilizando interpostas pessoas e fundos de participação registrados em nome de terceiros.

O banqueiro afirmou que o esquema foi montado com assessoria jurídica e contábil especializada, aproveitando brechas na regulamentação do Banco Central e na legislação de fundos de investimento. Ele mencionou a existência de ao menos três fundos de participação em private equity que serviam como casca para ocultar o verdadeiro beneficiário das operações, todas elas registradas entre 2019 e 2022, período que coincide com o auge da influência política da família Bolsonaro no governo federal.

A revelação de Vorcaro ocorre em um momento de fragilidade extrema para o senador Flávio Bolsonaro, que já responde a investigações sobre rachadinha e enriquecimento ilícito em outras frentes judiciais. A menção ao Banco Master, instituição financeira de médio porte que expandiu sua atuação durante os últimos anos, acrescenta um novo capítulo à teia de suspeitas que envolve o filho mais velho do ex-presidente Jair Bolsonaro.

A jurista Soraia Mendes destacou durante o programa que, se comprovadas, as operações descritas por Vorcaro configuram crimes de lavagem de dinheiro, falsidade ideológica e organização criminosa, com penas que podem ultrapassar 20 anos de reclusão. O professor João Feres acrescentou que o caso expõe a simbiose entre o sistema financeiro e o poder político no Brasil, alertando para o risco de que tais estruturas sejam usadas para financiar campanhas eleitorais de forma não contabilizada.

A cientista política Mayra Goulart apontou que o momento da delação é estratégico, pois ocorre a poucos meses do início oficial da campanha para as eleições de 2026, nas quais Flávio Bolsonaro desponta como um dos coordenadores da estratégia eleitoral do PL. Ela ressaltou que o escândalo pode isolar ainda mais o senador dentro do próprio partido, que já enfrenta divisões internas sobre a conveniência de manter a família Bolsonaro como principal capital eleitoral.

O Banco Master, sob o comando de Vorcaro, já havia sido citado em reportagens anteriores sobre operações atípicas envolvendo políticos e empresários do agronegócio, mas nunca de forma tão direta e detalhada. A decisão do banqueiro de tornar públicos os mecanismos do esquema Dark Horse sugere que ele busca um acordo de delação premiada com as autoridades, possivelmente para reduzir sua própria exposição penal diante de investigações em curso no Ministério Público Federal e na Polícia Federal.

A conexão do esquema com a campanha eleitoral de 2026 é um dos pontos mais sensíveis da revelação, pois indica que os recursos movimentados de forma oculta podem ter abastecido ou estar planejados para abastecer candidaturas do PL. Vorcaro teria mencionado que parte dos fundos foi estruturada já com a previsão de serem utilizados em campanhas futuras, o que configura crime eleitoral de caixa dois e pode levar à cassação de mandatos e à inelegibilidade dos envolvidos.

A defesa de Flávio Bolsonaro ainda não se pronunciou oficialmente sobre as acusações feitas por Daniel Vorcaro, mas fontes próximas ao senador afirmam que ele nega qualquer envolvimento com o esquema Dark Horse e pretende acionar judicialmente o banqueiro por calúnia e difamação. O silêncio do parlamentar nas redes sociais desde a veiculação do programa, no entanto, contrasta com sua postura habitual de reagir imediatamente a denúncias, o que alimenta especulações sobre o impacto real das revelações em seu círculo político.

O presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, também não se manifestou sobre o episódio, o que reforça a percepção de que o partido avalia os danos antes de emitir qualquer sinal de apoio ou distanciamento ao senador. O contexto eleitoral torna a situação ainda mais delicada, pois o PL depende da estrutura política e financeira montada por Flávio Bolsonaro em estados-chave como Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais para viabilizar sua estratégia de retomada do poder em 2026.

A Polícia Federal deve abrir um novo inquérito específico para investigar as declarações de Vorcaro, que já constam em depoimentos anteriores em outros procedimentos, mas ganharam agora contornos de delação formal e pública. O ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes, relator de diversas investigações envolvendo a família Bolsonaro, pode determinar a inclusão do caso no rol de apurações já em andamento ou a distribuição para outro ministro da Corte.

O escândalo Dark Horse expõe mais uma vez o padrão de funcionamento da máquina financeira que sustentou o bolsonarismo no poder, baseado em operações opacas, fundos de investimento, offshores e uso de instituições financeiras como intermediárias de recursos de origem questionável. A delação do dono do Banco Master, se homologada em âmbito judicial, pode abrir uma nova frente de investigação com potencial para atingir não apenas Flávio Bolsonaro, mas toda a cadeia de operadores financeiros que viabilizaram o esquema.

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