A pesquisa Datafolha divulgada na semana passada registra empate entre Lula e Flávio Bolsonaro no estado de São Paulo, com 35% cada na intenção de voto estimulada para presidente. Em votos válidos, que excluem brancos, nulos e indecisos, cada um marca 40%. O instituto ouviu 1.608 eleitores em 71 municípios paulistas entre 1º e 3 de julho, com margem de erro de dois pontos percentuais e registro SP-01703/2026 na Justiça Eleitoral.
O número ganha dimensão quando colocado sobre a régua de 2022. Naquele ano, Jair Bolsonaro fez 47,71% dos votos válidos no primeiro turno em São Paulo, o equivalente a 12,24 milhões de votos, contra 40,89% de Lula, que somou 10,49 milhões. No segundo turno, Bolsonaro venceu no estado por 55,24% a 44,76%, uma frente de 2,7 milhões de votos, maior que a diferença nacional inteira daquela eleição, que foi de 2,1 milhões. Lula se elegeu presidente perdendo São Paulo por larga margem.
Quatro anos depois, no cenário estimulado de primeiro turno da pesquisa, Lula marca em votos válidos os mesmos 40% que levou às urnas no primeiro turno de 2022. Flávio marca 7,7 pontos a menos que o pai obteve naquele primeiro turno. No cenário de segundo turno, a vantagem da direita encolheu de 10,5 pontos nas urnas de 2022 para 3 pontos na pesquisa de julho, com Flávio em 46% e Lula em 43%, empate técnico pela margem de erro. Em março, a mesma simulação de segundo turno registrava 48% a 41%. Em quatro meses, Lula subiu dois pontos e Flávio caiu dois. O bolsonarismo segue competitivo em seu principal celeiro de votos, mas sem Jair na cédula ainda não recuperou o tamanho de 2022. Um sinal de que parte dessa diferença pode voltar está na pesquisa espontânea, em que 3% dos paulistas ainda respondem que votarão em Jair Bolsonaro.
Os recortes explicam a sustentação de cada campo. Lula vence entre as mulheres por 37% a 32%, entre eleitores de ensino fundamental por 43% a 32% e na faixa de renda de até dois salários mínimos por 37% a 32%, o maior estrato da amostra. Flávio domina entre os homens, com 39% a 33%, entre quem ganha mais de dez salários mínimos, com 48% a 32%, e entre evangélicos, com 48% a 25%, todos no cenário de primeiro turno. No interior, seu maior reduto, o senador abre 52% a 38% na simulação de segundo turno. O interior concentra 53% do eleitorado paulista e é hoje o principal obstáculo de Lula no estado. O outro é a rejeição. Metade dos paulistas, 51%, diz que não votaria no presidente de jeito nenhum, o índice mais alto entre todos os candidatos testados. A rejeição a Flávio é de 43%.
Os jovens invertem o mapa
No resto do país, a força histórica de Lula está entre os eleitores mais velhos e mais pobres. Em São Paulo, o quadro etário aparece invertido. Entre os jovens de 16 a 24 anos, Lula abre 37% a 28% sobre Flávio, nove pontos, sua maior vantagem em qualquer faixa etária. Já na faixa de 60 anos ou mais, Lula perde por 39% a 36%. O voto de Flávio cresce ponto a ponto conforme a idade avança, de 28% entre os mais jovens até 39% entre os mais velhos. O eleitorado bolsonarista paulista envelheceu, e a pesquisa fotografa esse envelhecimento com nitidez.
A vantagem juvenil de Lula, porém, é rasa. Na pesquisa espontânea, apenas 15% dos jovens citam o presidente, e 56% da faixa não sabem responder. É um voto favorável e pouco cristalizado, disputado por todos os lados. À direita, o influenciador Renan Santos marca 3% no total, mas chega a 6% na faixa de 25 a 34 anos, e Ricardo Salles, candidato ao Senado, tem nos jovens de 16 a 24 seu melhor recorte, com 17%. À esquerda, o dado mais surpreendente do levantamento estadual. Na disputa pelo governo, Vera Lúcia, Vivian Mendes e Carlos Machado somam 29% entre os jovens, quase alcançando os 23% de Fernando Haddad na mesma faixa.
Haddad abaixo de 2022 e o peso do padrinho
Haddad marca 30% contra 46% de Tarcísio de Freitas no primeiro turno estadual e 37% contra 53% no segundo. Sua rejeição, de 47%, é a maior da disputa paulista e sobe a 60% entre quem ganha mais de dez salários mínimos. A pesquisa também mediu o peso dos padrinhos. Um candidato ao governo apoiado por Jair Bolsonaro teria o voto certo de 27% dos paulistas, enquanto um apoiado por Lula teria 19%. A rejeição ao apadrinhado de Lula chega a 54%, contra 49% do apadrinhado de Bolsonaro. O fenômeno já apareceu nas urnas. Em 2022, no mesmo dia e nas mesmas urnas, Haddad recebeu 8,34 milhões de votos no primeiro turno, 2,15 milhões a menos que Lula no estado. O voto de Lula em São Paulo é pessoal e não se transfere por indicação. O dado positivo para o ministro é o avanço no conhecimento, com a citação espontânea subindo de 2% em março para 8% em julho.
Quanto custa a fotografia
Segundo os dados abertos do TSE, 34 pesquisas foram registradas em 2026 no âmbito da eleição estadual de São Paulo até esta semana. O recorte é apenas estadual e não inclui os registros de âmbito nacional. Os valores declarados variam de R$ 4 mil, da Ipsensus Pesquisas, a R$ 279.386,89, da Quaest, com média de R$ 76,9 mil por levantamento. No custo por entrevistado, a variação vai de R$ 0,80, em um registro da Badra Comunicação, a R$ 169,33, da Quaest, com média de R$ 42,50. O levantamento do Datafolha contratado pela Folha de S.Paulo custou R$ 185.706,64 por 1.608 entrevistas presenciais em pontos de fluxo, ou R$ 115,49 por entrevistado, o segundo maior custo por entrevista entre as 34 pesquisas paulistas, atrás apenas da Quaest.
A régua de 2022 também recomenda cautela na leitura dos números atuais. A última Datafolha estadual antes do primeiro turno daquele ano dava Haddad com 39% dos válidos contra 31% de Tarcísio, e Márcio França com 45% contra 31% de Marcos Pontes no Senado. Nas urnas, Tarcísio fez 42,3% contra 35,7% de Haddad, e Pontes fez 49,7% contra 36,3% de França. O instituto subestimou o voto bolsonarista paulista em até 14 pontos no primeiro turno e acertou o segundo com precisão. Se algum viés da mesma natureza persistir, o empate atual é o cenário otimista para o campo de Lula, não o piso.
São Paulo tem 33,6 milhões de eleitores aptos em 2026, 21% do eleitorado nacional. Mantido o padrão de 2022, com abstenção de 21,6% e 94% de votos válidos entre os presentes, o estado deve produzir cerca de 24,7 milhões de votos válidos para presidente. Cada ponto percentual valerá em torno de 247 mil votos. Os 40% que Lula registra hoje equivalem a 9,9 milhões de votos, praticamente o mesmo volume que o levou à vitória nacional em 2022 apesar da derrota paulista. A diferença é que, desta vez, a disputa no maior colégio eleitoral do país começa empatada.
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