Uma equipe internacional de cientistas descobriu que as plantas não estão respondendo ao aquecimento global da forma como se supunha há décadas. O aumento na absorção de carbono pelos ecossistemas terrestres não vem da adaptação térmica da fotossíntese, mas de uma eficiência hídrica muito maior do que se imaginava.
A pesquisa, publicada no periódico One Earth e reportada pelo portal Phys.org, foi liderada pelo professor José M. Grünzweig e pelo doutor Chongyang Xu, do Instituto Robert H. Smith de Ciências Vegetais e Genética Agrícola da Universidade Hebraica de Jerusalém. O trabalho contou com a colaboração do professor Hongyan Liu, da Universidade de Pequim, e do professor Dan Yakir, do Instituto Weizmann de Ciência.
Durante anos, os cientistas acreditaram que os ecossistemas só conseguiriam manter o ritmo de absorção de carbono em um planeta em aquecimento se as plantas ajustassem a temperatura na qual a fotossíntese opera de forma ideal. Se essa fosse a principal resposta à mudança climática, a temperatura ótima da fotossíntese deveria subir conforme o planeta esquenta.
Para testar essa hipótese, os pesquisadores analisaram duas décadas de observações globais, combinando medições terrestres de carbono com dados de satélites coletados entre 2000 e 2019. O que emergiu foi um descompasso surpreendente entre a teoria e a realidade observada.
Embora os ecossistemas tenham de fato aumentado suas taxas máximas de absorção de carbono nas últimas duas décadas, a temperatura ideal da fotossíntese permaneceu praticamente inalterada, especialmente em regiões áridas e frias. O estudo revelou que o aumento da temperatura ótima da fotossíntese respondeu por menos de 20% do incremento global na absorção máxima de carbono.
O verdadeiro motor do fenômeno foi outro: as plantas desenvolveram mais folhas e passaram a usar a água com muito mais eficiência, absorvendo mais dióxido de carbono para cada gota de água transpirada. Essa maior eficiência hídrica foi o fator dominante inclusive em ambientes úmidos, como regiões tropicais, temperadas e frias.
Os pesquisadores constataram ainda que o ar mais seco e os solos com menor umidade reduziram ainda mais a importância da adaptação térmica. Isso colocou o crescimento da copa, a expansão da área foliar, como um fator central na forma como os ecossistemas respondem às mudanças do clima.
Estes achados deixam claro que não podemos prever o armazenamento futuro de carbono olhando apenas para as respostas de temperatura, afirmou o professor Grünzweig. Nossa pesquisa mostra que a água desempenha um papel muito maior do que se reconhecia anteriormente.
O doutor Chongyang Xu destacou um aspecto particularmente surpreendente dos resultados. Embora as regiões áridas tenham mostrado pouca evidência de adaptação ao aumento das temperaturas, sua absorção de carbono continuou aumentando nas últimas duas décadas — e isso se deveu principalmente à expansão da copa, com programas de restauração ecológica contribuindo substancialmente em algumas áreas.
A descoberta tem implicações profundas para os modelos climáticos que tentam prever quanto dióxido de carbono os ecossistemas conseguirão remover da atmosfera no futuro. À medida que as temperaturas sobem e as secas se tornam mais frequentes, entender como as plantas gerenciam a água será essencial para projetar o balanço de carbono do planeta.
Os ecossistemas terrestres funcionam como uma das defesas naturais mais importantes contra a mudança climática, absorvendo cerca de um quarto do dióxido de carbono liberado por atividades humanas a cada ano. Compreender os mecanismos que controlam esse armazenamento natural de carbono é vital para prever os níveis futuros de CO₂ na atmosfera e o ritmo do aquecimento global.
O artigo completo, intitulado Photosynthetic optimum temperature plays a minor role in the increase of terrestrial carbon uptake from 2000 to 2019, foi publicado no periódico One Earth com o DOI 10.1016/j.oneear.2026.101703. Os novos achados apontam para um redirecionamento da ciência climática: o foco deve se deslocar da temperatura para a gestão hídrica das plantas e a dinâmica de suas copas.